Itaúna, 19 de abril de 2019

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02 de fevereiro de 2019 às 07h00 - Atualizado: 09 de fevereiro de 2019 às 10h42

Irresponsabilidade social e moral

Duas tragédias em três anos. Ambas no mesmo setor, o da exploração minerária em Minas Gerais. Os impactos não podem ser mensurados ainda, mas já são observados e calculados como de grandes e graves proporções em setores diversos, como o ambiental, o do emprego, da renda... E o pior, o da vergonha, o da falta de respeito e valor pela vida humana. Não vamos aqui transformar os empresários em criminosos comuns, mas temos que juntar a eles os nossos políticos, que são, mais uma vez, os verdadeiros culpados, os grandes responsáveis pelos acidentes que se transformaram em tragédias. São eles que fazem e votam as leis neste país. E é um absurdo que em 2019 estejamos amparados por leis que já deveriam estar extintas na primeira metade do século passado. O que ocorreu em Brumadinho na sexta-feira, dia 25 de janeiro de 2019, é de uma irresponsabilidade sem limites, não só dos empresários ou dos engenheiros responsáveis pelas barragens de rejeitos ou das empresas terceirizadas, que assinaram laudos atestando segurança, ou dos políticos. Mas de toda a população que não cobra, não está atenta e vota sem exigir posições dos seus representantes. Parece repetição chata, mas é necessário afirmar sempre que o maior responsável pelos desastres que estamos assistindo, que tem como consequência uma verdadeira carnificina, somos nós mesmos. Ou não é? Ou tem alguém que acha que um acidente com cerca de 500 mortos não pode ser denominado como carnificina? É uma vergonha para nós todos.
E vergonha maior é a sensação advinda de muitos cidadãos acima de qualquer suspeita, que não conseguem enxergar a seriedade do desastre, em todos os sentidos, mas com maior ênfase no emocional. A vida humana é o principal foco, a consequência da perda é inarrável e a dor de milhares de famílias não tem como ser descrita. A única palavra a ser dita é: dor. E em meio a essa dor, ao sentimento de impotência e de desinformação e informações desencontradas, muitas pessoas não pensam para agir ou se posicionar no contexto ou discutir o assunto. Desde o dia do acontecimento até o momento, são tantas a asneiras, besteiras, escritas, ditas e até descritas que, em nossa opinião, só podem ser definidas como idiotices irresponsáveis, e que não contribuem com nada para o acalento das famílias envolvidas, da população do entorno e/ou dos profissionais que estão ali tentando encontrar as causas do ocorrido. É evidente que há negligência, ganância, desvalorização da vida humana. Mas é preciso ter consciência antes de ir para as redes sociais, por exemplo, afirmando, às vezes categoricamente, que outros adventos da mesma proporção podem ocorrer. Podem, mas como? Por quê? Onde? É preciso ter conhecimento técnico, geográfico...
Por exemplo. As postagens feitas por um médico, que alias é competente na área que atua, e muito conhecido em Itaúna também pelos seus posicionamentos políticos, causou certo pânico em grande parcela da comunidade itaunense. Hoje, as redes sociais disseminam as opiniões de forma muito rápida e as interpretações podem ser errôneas e causar, além de pânico, indignação, revolta, dentre outras reações. A postagem feita no sábado pela manhã, sob o título: “Itaúna em alerta – atentando para o perigo das barragens das minerações que atuam na Serra do Itatiaiuçu ou quadrilátero ferrífero da Serra Azul, se arrebentassem poderiam atingir Itaúna”, com todo respeito, é de uma idiotice sem tamanho e mostra o grau de desconhecimento das pessoas, que mesmo assim publicam as coisas sem um estudo prévio. A partir da publicação que “viralizou”, certo pânico foi se generalizando, e sem nenhuma necessidade. É impossível que Itaúna seja atingida por qualquer detrito proveniente de arrebentação de barragens de rejeitos na serra de Itatiaiuçu. É como bem frisou um profissional da engenharia em reunião da Amisa: “só se a lei gravidade da física for modificada e água subir morro”.
Se estamos cobrando respeito dos empresários, dos políticos e dos profissionais dos setores minerários, temos também que ter respeito para com as pessoas e sermos responsáveis pelas nossas ações. Além das postagens nas redes sociais, empresários das mais diversas áreas, líderes, e pseudos líderes, além de políticos da região, itaunenses e itatiaiuçuenses – e que em nossa opinião são apenas pessoas que não perdem oportunidade para aparecer e que estão tirando proveito da situação e “metendo o bedelho” onde não foram chamados –, contribuíram nesses últimos dias para as “lambanças” em torno do assunto. É lamentável pela falta de respeito. Mas na atualidade a liberdade fez de todos “donos da verdade”. A grande maioria acha que pode opinar sobre tudo, falar sobre tudo e até gerir sobre tudo. Não há mais respeito pelas instituições, pelos profissionais e pelas leis. É o mundo globalizado. E o ser humano, a sensibilidade e o sentimento comum? Onde foram parar?