Itaúna, 21 de abril de 2019

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13 de abril de 2019 às 07h00 - Atualizado: 13 de abril de 2019 às 12h21

FOLHA Entrevista

Fernando Meira de Faria Secretário Municipal de Saúde

Ele é médico com especialização em Radiologia pela UFMG. Fez pós-graduação em Auditoria em Saúde, pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), e MBA em Gestão em Saúde, pela Faculdade Unimed. Lembra que não fez os cursos devido à sua função atual, de secretário municipal, mas porque sempre se interessou na resolução de problemas da área de gestão. É casado com Lidiane, com quem tem o filho Lucas. Fernando Meira resume os problemas da saúde como fruto de uma cultura de individualização e priorização do pessoal. “Política não deve ser construída visando atendimento da questão pessoal”. Em entrevista exclusiva à FOLHA ele fala sobre essa questão e faz um resumo de sua atuação à frente da Secretaria de Saúde de Itaúna no governo do prefeito Neider Moreira. Confira.

FOLHA – Como vai a saúde de Itaúna?
FERNANDO MEIRA – Vai bem, acredito que um pouco melhor do que quando assumimos em 2017. Ainda há muita coisa a fazer, mas é preciso saber que esta área não se resume à atuação local, é preciso que haja uma atuação dos três entes (Município, Estado e Federação) para que as coisas aconteçam. Temos muito a avançar, principalmente pelo fato de que o setor público está sempre atrás em questões de modernização de práticas, de ações, talvez pelo fato de que os recursos não são suficientes para toda a demanda.

FOLHA – Hoje quais são os principais gargalos da área da saúde em Itaúna?
Fernando Meira – De imediato, a regularização dos repasses por parte do Estado. Em 2018 investimos 24.7% do orçamento em saúde, sendo que a Constituição Federal manda que se aplique 15%. Mas esses números não são acompanhados pelos demais entes. No Estado, principalmente, o que aconteceu foi uma retração (no percentual de investimentos). Assim, sem recursos, não conseguimos abrir, por exemplo, uma nova unidade de PSF, pois não temos a garantia de recursos para mantê-lo. Assim, num todo, a área da saúde passa a ser subfinanciada, com aplicação de recursos por parte do município, até maior do que a legislação preconiza, mas com redução nos recursos do Estado neste setor. Dessa forma, em 2018 tivemos que priorizar, investindo na resolução de problemas imediatos, e não pudemos aplicar em outras áreas que pretendíamos. Então, priorizamos a assistência, o atendimento às demandas imediatas.

FOLHA – Com essa priorização da assistência, o que a comunidade ganhou?
Fernando Meira – Estamos em um período de epidemia de Dengue. Sabemos que a cada três anos ocorre uma ampliação nos casos desta doença. Como investimos na assistência preventiva, estamos em situação bastante diferente do que ocorreu em 2016. Naquele ano Itaúna registrou cerca de 3.800 casos, um pouco mais... Agora, em 2019, até este início de abril estamos em 46 casos notificados, com 16 confirmados. E alertamos para o fato de que as cidades da região estão vivendo esta epidemia com grande aumento de números de casos, como Pará de Minas, Mateus Leme... e outras cidades da região (na semana passada a Regional Centro-Oeste registrou o maior volume de casos de Dengue no Estado, conforme divulgação da imprensa da capital). Claro que vai crescer (o número de casos registrados em Itaúna), mas estamos em situação melhor que as cidades da região. Por isso foi importante priorizar os investimentos na assistência preventiva, pois ao final o resultado demonstra que racionalizamos estes gastos. Claro que precisamos de mais agentes nas ruas, de melhorar a estrutura de trabalho no combate ao mosquito, mas, como disse, a priorização mostrou resultados. Outro caso que podemos citar é a contratação de um médico reumatologista. Antes, tínhamos direito a uma consulta por mês para esta especialidade, hoje já atendemos a 16 consultas por semana. Começou nesta semana um médico infectologista, o que vai permitir a implantação, em maio, do SAE – Serviço de Atenção Especializada. Vamos fazer um trabalho específico em torno da AIDS... Essa racionalização nos investimentos busca tomar conta do cidadão, mas acaba trazendo mais responsabilidades para o Município. Mas é preciso reduzir o que a gente chama de “ambulâncioterapia”. Aos poucos, vamos colocando as coisas nos lugares...

FOLHA – E as filas, como estão acontecendo soluções para esse problema praticamente crônico na saúde?
Fernando Meira – Temos buscado soluções, sim. Nos casos das cirurgias eletivas, firmamos um contrato com o hospital, pagando um pouco mais além do que o SUS paga. Assim, aquelas (cirurgias) de média complexidade, que podem ser feitas aqui, estão sendo realizadas. Por exemplo, casos de hérnia, de vesícula, são realizadas com prazo médio de 2, 3 meses. Já em casos de cirurgias de alta complexidade, como de instalação de próteses, por exemplo, aí já demanda um tempo maior, pois dependemos dos fornecedores, aí o caso não está mais na nossa alçada, depende de fatores outros, que não estão sob a nossa administração e fica mais difícil de resolver.

FOLHA – Ao falar sobre filas, temos de lembrar da questão da Farmácia Popular, que, inclusive, foi tema de capa da nossa edição passada. O que está sendo feito para resolver esse problema?
Fernando Meira – Conforme antecipamos, estamos aumentando o número de funcionários para ampliar a capacidade de atendimento à demanda. O fato é que, hoje, comparando a 2017, temos a seguinte situação: tínhamos a Farmácia Básica e a Farmácia Popular. Com o fim desta última, aumentou a demanda para a Farmácia Básica. Some-se a isso a ampliação da oferta de medicamentos que fizemos. Hoje ofertamos mais medicamentos, a fluoxetina é um exemplo. E outra melhora na saúde, como o aumento da oferta de especialistas que temos feito ao longo desse mandato, também aumenta a demanda por medicamentos. Para se ter uma ideia, em números do início do nosso trabalho, eram entre 140/150 pessoas atendidas na Farmácia Básica, por dia, o que dava média de 3 mil pessoas/mês, às vezes um pouco mais, indo a 3.200. Hoje atendemos em torno de 260/270 pessoas-dia, chegando à média de 5.600 por mês.

FOLHA – Distribuir os medicamentos nos postos de saúde não seria uma opção?
Fernando Meira – Antes até era assim, mas uma decisão do Conselho de Farmácia, que define que é obrigatória a presença de farmacêutico no local de dispensação de medicamentos, inviabiliza essa opção (seria obrigatória a presença de um farmacêutico em casa unidade de saúde). Mas estamos buscando as soluções para esse tipo de problema.

FOLHA – Foi informado, nos últimos dias, que foi comprado um aparelho de Raio-X digital para Itaúna. Isso vai agilizar a realização dos exames e aumentar a capacidade?
Fernando Meira – Sim. O aparelho está na fase final de ajustes e deverá iniciar a operação já na próxima segunda-feira. Esperamos que aumente de 20 a 30 por cento o número de exames realizados, já que o sistema digital elimina a questão da revelação em filmes das radiografias. Assim, cada exame vai demandar menos tempo e isso permitirá o aumento da capacidade de atendimento. Como disse antes, o serviço público precisa evoluir, modernizar, para ampliar a capacidade de atendimento, já que a demanda, também neste caso, aumentou muito.

FOLHA – E o mamógrafo? Desta vez será adquirido?
Fernando Meira – É um sonho que esperamos ver realizado. Semanalmente mandamos quase dois ônibus a Betim, para realizar esse tipo de exame. Tinha anteriormente uma questão com o ex-deputado Jaiminho, que não se efetivou. Agora a Gláucia (vereadora) nos informou que conseguiu com o deputado Lafaiete Andrada a verba para a aquisição do mamógrafo. Será ótimo. O que posso dizer é que é uma expectativa aguardando a efetivação...

FOLHA – E o Plantão 24 Horas? Em reunião do Conselho de Curadores (da Casa de Caridade, mantenedora do hospital), foi lembrado pela provedora que houve uma melhora no atendimento, apesar de reclamar dos atrasos nos repasses... O que a população ganhou (com o hospital assumindo o plantão)? Como resolver essa questão dos atrasos nos repasses?
Fernando Meira – A situação com a direção do hospital, pelo que me lembro, nunca foi tão boa como é agora. Claro que existem problemas a serem solucionados. Em relação ao Pronto-Socorro (Plantão 24 Horas), era um dos maiores gargalos. Acho que foi um erro a transferência da administração para o Cismep. Nada melhor do que quem tem expertise na área para administrá-la. Não há dúvida de que foi uma atitude acertada entregar a administração do PS para o hospital. Em relação aos repasses, lembro que, assim que acertamos o contrato para que o hospital assumisse a administração do serviço, começamos a solucionar o problema dos repasses do Rede Resposta. O atraso nos repasses por parte do Estado criou outra situação e espero que seja resolvido o mais rápido possível, com as informações de que o governador revogou o decreto do governo anterior que permitia a retenção dos recursos municipais e o acerto anunciado, para que os repasses sejam colocados em dia. Na administração tem a determinação do prefeito para que os repasses ao hospital tenham prioridade. Agora é esperar que o fluxo de caixa seja regularizado e que esta situação com o hospital também. Não tenho como estipular prazos, mas estamos trabalhando para resolver o mais rápido possível. Hoje os atrasos estão em torno de R$ 1 milhão, menos do que já foi há algum tempo e com certeza, conseguiremos colocar tudo em dia, brevemente.

FOLHA – Quantos são os funcionários da área da saúde em Itaúna?
Fernando Meira – São 680 funcionários, no total...

FOLHA – E médicos, são quantos?
Fernando Meira – Hoje temos em torno de 75 médicos na rede pública municipal, entre efetivos e contratados.

FOLHA – Esse número é suficiente?
Fernando Meira – Podemos melhorar alguma coisa, como no caso do oftalmologista, que estamos buscando contratar. Está difícil, mas é uma área que precisamos ter. Mais especialistas, pois nos dá uma amplitude na oferta. Sempre podemos melhorar... Trouxemos um médico cirurgião com especialidade em cabeça e pescoço... Essas oportunidades temos de ficar atentos. Precisamos ampliar as unidades de PSFs. Não é o suficiente, mas está próximo.

FOLHA – Falando em PSF, como está o serviço nesta área para a zona rural?
Fernando Meira – Existe uma equipe itinerante que roda as zonas rurais. O problema que enfrentamos é com relação à sede, o local de atendimento nas comunidades. Algumas unidades têm mais estrutura, outras menos. Em casos, por exemplo, de atendimento feito a cada 15 dias, dado ao tamanho da comunidade, temos enfrentado mais dificuldades. Nem sempre estes locais são mantidos nas mesmas condições, havendo alguns problemas. Mas temos levado o serviço a toda a zona rural, normalmente.

FOLHA – Como médico, especialista em gestão, secretário e cidadão, o que mais de incomoda (na área da saúde)?
Fernando Meira – Acho que são dois aspectos. Na questão da alta complexidade, a dificuldade encontrada, a demora no atendimento, é complicado... Às vezes, 45/60 dias para a realização de uma cirurgia de emergência... é terrível uma situação como esta, o Estado precisa regularizar essa situação. Outro caso é a cultura do jeitinho, do entendimento de que “o meu caso é mais urgente”, da individualização das situações, da busca pelo benefício pessoal. Entendo que política pública não é, e não deve ser, construída em benefício próprio. Temos que seguir com as questões dentro de uma legalidade e essa interferência da individualização atrapalha. Esse famoso “jeitinho” tem que acabar.

FOLHA – Como cidadão, você confia plenamente no serviço de saúde do município?
Fernando Meira – Sim, confio. Tem muito para melhorar, como já disse. Temos gestões que precisam de tempo para se efetivarem, mas hoje a situação de Itaúna é diferenciada. No geral, estamos muito melhor que vários municípios da região e até comparando com municípios do mesmo porte.