Itaúna, 24 de setembro de 2018

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06 de janeiro de 2018 às 07h00 - Atualizado: 27 de janeiro de 2018 às 10h20

ZÉ DA RINHA

Não era filho de Itaúna. Nascido no município de Bonfim, chegou a estas terras de Sant’Ana com pouco mais de cinco anos, na companhia dos pais e de seis irmãos menores.
Forneiro de mão cheia, o pai veio trabalhar na Usina São João, braço siderúrgico da Cia. Industrial Itaunense.
Aqui cursou o primário no ‘grupo de baixo’ e o ginasial na Escolinha do Carmelo e com o diploma do ginasial concluído, partiu de mala e cuia em busca de um trabalho. Trabalhou com tudo, auxiliar disso, auxiliar daquilo, ajudante disso, ajudante daquilo, até se firmar como vendedor de uma empresa catarinense do ramo de confecções. Sua área de atuação cobria todo o Centro Oeste de Minas Gerais e, de segunda a sexta, caia na estrada com o seu possante fusquinha, abarrotado de mercadorias, na busca de clientes de pronta entrega ou de pedidos pós-vendas. Comunicativo e muito extrovertido, era recebido com entusiasmo pela vasta clientela. Vendia bem. De segunda a sexta, pulando de cidade em cidade, ficava sempre nos mesmos hotéis ou pensões, onde criou um grande círculo de amizades. Apesar de ostentar o nome de José, era conhecido por todos pelo apelido de Zé da Rinha. Este era realmente o grande vício do José: uma paixão desenfreada por briga de galos. Desde adolescente já acompanhava o pai nas disputas em rinhas clandestinas de Itaúna, Bonfim, Rio a Baixo e Mateus Leme e em muitas ocasiões teve de pular muros e invadir quintais fugindo de batidas policiais, pois a atividade é proibida por lei.
Ao chegar a uma cidade na sua dura jornada semanal, a primeira coisa que assuntava, tanto no hotel ou pensão onde se hospedava, ou junto à clientela, era se tinha alguma rinha funcionando naquele dia. Precavido, costumava chegar ao local dos combates com antecedência para verificar não só o porte das aves, bem como colher informações nos bastidores sobre os favoritos para melhor direcionar as suas apostas, que muitas vezes, em função das dicas recebidas, chegavam a ultrapassar o valor das suas comissões semanais. Vez ou outra perdia, mas sempre munido de boas informações e dicas preciosas, estava sempre com o saldo positivo nas suas apostas.
Numa quarta-feira, após cobrir toda a clientela da cidade de São Sebastião do Oeste, próximo a Divinópolis, e já se aproximando das cinco horas da tarde, dirigiu-se rapidamente para a pensão onde estava hospedado para um banho rápido, pois dali a algumas horas uma rinha ia funcionar em um sítio próximo. Chegando ao local, como de costume, observou atentamente os robustos galos índios alojados em suas gaiolas e saiu em busca de informações sobre os favoritos para os combates daquele início de noite, para melhor direcionar as suas apostas. Com o anúncio do início das disputas, se posicionou ao lado da rinha onde dois galos índios estavam sendo preparados para a primeira briga. Eram dois galos enormes, um branco e um preto, com suas esporas de aço e os olhos vendados para não se estranharem antes da disputa. Decidido a obter mais informações sobre o favorito na briga que ia se iniciar, aproximou-se de um senhor que fumava um cigarro de palha bem próximo a rinha e sorrateiramente indagou: quem é o bom aí, hem amigão!
Sem encarar o vendedor de confecções postado ao seu lado e continuando a fumar tranquilamente o seu cigarrinho de palha, o homem responde de pronto: o bom é o galo branco!
Sentindo firmeza na resposta rápida daquele homem simples, o Zé da Rinha não pensou duas vezes e apostou tudo que tinha no garboso galo branco já postado no meio da rinha para o início da disputa. Com o início da disputa entre os dois galos com saltos, esporadas, batidas de asa e bicadas, em poucos minutos o galo preto estraçalhou o galo branco que ficou estrebuchando e se retorcendo no meio da arena.
Revoltado com a dica recebida, o vendedor de confecções resolveu tirar satisfação com o senhor do cigarro de palha, pois havia perdido todas as suas economias apostando no galo errado.
- “Que bonito né meu senhor - exclamou num desabafo o Zé da Rinha”.
- “Eu te pedi uma dica sobre o galo bom e o senhor me indicou o galo errado, né!”.
- “O que o senhor tem a dizer? - Voltou a exclamar irritado o vendedor de confecções!”.
Calmamente e ainda com o cigarro no canto da boca, o senhor se virou lentamente para o vendedor postado à sua frente e exclamou: “o galo branco é o bom, mas o marvado é o preto, uai!”.

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