Itaúna, 21 de fevereiro de 2019

Cadastro

09 de fevereiro de 2019 às 07h00 - Atualizado: 16 de fevereiro de 2019 às 10h11

VOLTA ÀS AULAS

A volta às aulas gerava a expectativa do novo. Como era gostoso o cheiro do material escolar! Os cadernos deveriam ser muito bem encapados (gostava de abri-los e cheirar suas folhas, assim como dos livros novos). Tudo era preparado com muito zelo, com muito capricho. Canetas, os lápis bem apontados, a caixa de lápis de cor, borracha, lapiseira, régua. Houve um tempo que precisei também de esquadros, compasso e transferidor. Uma pastinha e anos depois a mochila de lona.
No início dos estudos, o uniforme escolar. Calça de tergal azul marinho e a camisa do mesmo material, branquinha e com o escudo da escola no bolso. Sapato preto – muito bem engraxado da Vulcabrás (esse era um capítulo à parte: solado de borracha que assava os pés no calor e deixava as meias brancas amareladas). No colegial foi sempre assim. Só deixei o uniforme escolar quando da faculdade.
Havia expectativa até com relação aos professores. Aquela de matemática não! Deus me livre daquela “dona”... (risos). Idem da de Física (explicava muito mal e exigia demais). Ah, mas o de português era ótimo (temido; mas excelente); o de Química era engraçado. Tantos e tantas que deixaram suas marcas em mim, de alguma maneira.
Os anos se passaram e veio a faculdade. Nada mais de uniformes ou material escolar. Um tempo diferente, com cheiro de liberdade e horizontes se alargando. No Direito era pitoresco ver os calouros usando terno e gravata no primeiro dia de aula (uns já se imaginavam magistrados). Na História, já mais maduro e ciente de minhas vocações, o tempo foi melhor aproveitado. Mas, gostei muito da minha formação. Me deu uma base sólida para o enfretamento da Vida.
Jardim de Infância “Ana Cintra”, Grupo Escolar “Augusto Gonçalves”, Escola Estadual de Itaúna, Colégio Santana e Universidade de Itaúna (em dois cursos). Esta foi a trajetória até o presente momento. Afinal, aprender é tarefa diária e de muitas formas e maneiras.
Nos dias que correm, infelizmente, falta o respeito. Respeito ao professor. E não é apenas por parte do aluno. Falta respeito ao professor por parte da Família. Falta respeito ao professor por parte dos Governos. Falta respeito ao profissional da Educação por parte de seus próprios pares. E também da parte de outros agentes que exercem funções diversas nas muitas repartições e departamentos dos Ministérios e Secretarias de Educação. Muito cacique pra pouco índio.
É preciso reumanizar a Educação. Sentir o outro. Ouvir o outro. Enxergar o outro. Colocar-se no lugar do outro. Estamos perdendo o sabor de tudo. Falta o bom tempero da compreensão e da fraternidade no cotidiano de nossas escolas. Há um atropelo burocrático passando por cima do essencial como um rolo compressor. Há um excesso de argamassa ideológica e burocrática que está engessando, sufocando e comprimindo o profissional da Educação. Formas muito estreitas, gaiolas muito apertadas. Educação é para libertação. Educação é processo de formação do ser humano. Não somos linha de produção de autômatos para servir ao sistema e nada mais. Não podemos ser o laboratório de testes infinito de teorias ou o repetir mecânico e massacrante de conteúdos programáticos frios e alijados da realidade do aluno. A escola precisa reinventar-se e com urgência. Retomar o primeiro amor. A escola é um dos lugares da Educação. Educação para uma melhor compreensão e entendimento do mundo em que vivemos. Educação para viver e conviver em sociedade. Se essa não for a meta, rumamos para o limbo.
Contudo e apesar de...eis de novo a volta às aulas. Há sete anos na gestão de uma escola pública do Estado. Muitos desafios. Inúmeras incongruências. Cada Governo que ascende ao Poder quer inventar a roda e surgem mil projetos enlatados ou confeccionados em seus arejados gabinetes longe da realidade da sala de aula. Alguns retornam repaginados e com novas nomenclaturas. A grande maioria desses projetos “goela abaixo” das instituições que ficam à mercê da ideologia de quem está na vez do mando público. Uma imensa burocracia burra, emperrada, de se preencher inúmeros formulários de programas que no fim, nada somam, nada acrescentam na qualidade da Educação.
Contudo, sigamos o nosso caminho.
Eu sou Professor e tenho orgulho da minha profissão. Assim escolhi e assim me realizo.
Eu acredito na Educação.
Luiz Mascarenhas: presente!


*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/
Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e
“O que a vida quer da gente é coragem”/
Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”
Cidadão Honorário de Itaúna

Prof. Luiz Mascarenhas - Réquiem para o Padre Nilo

ITAÚNA amanheceu mais pobre em seu cenário humano na manhã cinzenta do sábado, dia 12 de março do corrente ano. Partia para a eternidade o nosso tão querido Pe. Nilo.
Deixo aqui, a minha pequena contribuição sobre a Vida deste homem, com quem convivi desde a minha infância. Lembro-me bem da calça adidas, com as três listras, a camisa de malha branca, os tênis e um fusquinha que não me lembro bem a cor.
Todos os alunos postos em fila na linha vermelha da quadra e em silêncio. Seis horas da manhã. O relógio da Matriz de Sant’ana ecoava por toda a Itaúna a sua primeira badalada. E ele começava sua aula de Educação Física: “o anjo do Senhor anunciou a Maria...”
Nilo Caetano Pinto nasceu no distrito de Antônio dos Santos, em Caeté, Minas Gerais, em 24 de março de 1930. Era o filho mais velho de Carlito Caetano Pinto e Antônia Luiza Dinis e teve mais seis irmãos. Órfão de pai aos 11 anos, começou a trabalhar para ajudar em casa, sem deixar de lado os estudos, que seguiu até graduar-se em Educação Física pela UFMG.
Chegou em nossas barrancas ( graças a uma indicação do Cel. José Lázaro Guimarães- cunhado do Dr. Guaracy), já casado com Florescena Diniz Guimarães Pinto e tiveram teve oito filhos, dos quais conheceu 12 netos e um bisneto.
O nosso então Prof. Nilo lecionou na Escola Normal, a Escola Estadual de Itaúna, por 34 anos, como professor e vice-diretor. No Colégio Santa’Ana ficou durante 26 anos.
Nilo sempre foi um homem de Fé. Sempre engajado nos movimentos da Igreja. Ajudava com sua Família na Igreja da Piedade e na comunidade Sagrada Família do Bairro Cerqueira Lima, pois residia naquela região.
Em 1982, dona Florescena, sua esposa, veio a falecer. E aos 52 anos, ainda criando os filhos, resolveu dizer sim ao chamado desse Deus. Assim sendo, encaminhou-lhe Dom Cristiano Penna para a Faculdade de Teologia, da PUC Minas, em Belo Horizonte. Foi ordenado padre por Dom José Belvino do Nascimento, aqui em Itaúna no ano de 1990, no Poliesportivo JK.
Muitos o chamavam de “o homem dos 7 sacramentos”. Para nós católicos, os sacramentos são sinais visíveis da graça de Deus. São veículos dessa graça. E a maioria dos homens parte deste mundo com 6 sacramentos; pois ou se tem o sacramento do matrimônio ou o da Ordem ( que confere o sacerdócio católico).
Pois bem. O nosso Pe. Nilo partiu daqui na plenitude da graça! Com todos os 7 sacramentos! O último foi-lhe ministrado no leito do hospital, a unção dos enfermos, que o preparou para ir de encontro a Deus.
Em meio a tantas crises; eis o exemplo de Padre Nilo para nós. Exemplo de pai, de padre, de fidelidade, à Deus, à sua Palavra sobretudo. Enquanto esposo, honrou plenamente seu casamento sendo-lhe fiel até a morte de sua esposa. Enquanto padre, honrou plenamente o seu sacerdócio, sendo-lhe eternamente fiel. Enquanto homem, honrou plenamente a espécie humana, sendo humano com os humanos!
Descanse em Paz meu Pe. Nilo. Recebe agora a coroa da Justiça, a qual o Senhor, Justo Juiz, lhe deu naquele dia!
Misture sua luz a das estrelas...cintile quando o dia clarear.
Réquiem aeternam dona eis Domine, et lux perpetua luceat eis.

*paroquiano de Sant’ana

Colunas recentes de Prof. Luiz Mascarenhas - Réquiem para o Padre Nilo