Itaúna, 19 de novembro de 2017

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21 de outubro de 2017 às 07h00 - Atualizado: 11 de novembro de 2017 às 10h15

Uma esposa confiável

Toda leitura é válida, seja ela a de uma revista, um gibi ou um livro, mas há leituras e leitura, assim como há livros e livro, sendo este o caso deste livro. É muito prazeroso ler um livro maduro de um escritor também maduro.
Esta obra é um drama. E há quem não goste, como há os que só gostam se for o mais próximo da realidade, não que toda a realidade seja um drama, mas a vida é mais dramática do que possa imaginar vossa vã esperança, isto parafraseando Shakespeare.
O autor me é um estranho, um desconhecido, por isso uma agradável surpresa, na verdade um banquete. Ele tem escrita primorosa, argumento extremamente válido e coincidência à parte, comecei a ler este livro quando estava com 54 anos e a identificação com o personagem central foi instantânea e não só porque tinha ele também cinquenta e quatro anos.
E por falar em drama a vida de Ralph Truit já tivera uma dose bastante forte de tragédia, a ponto de aos 34 anos haver abdicado de uma vida conjugal. Perdera em um acidente mulher e filhos e a partir de então vivia para si e suas empresas. Preocupava-se com as pessoas de sua cidade e dava emprego para a maioria delas, pois “trabalhavam para ele de um jeito ou de outro: na fundição de ferro, derrubando árvores, minerando, subindo o valor das vendas ou dos aluguéis, comprando ou vendendo”. Era amado por alguns e odiado por outros, mas ninguém se atrevia a ignorá-lo, porque ele era o dono da cidade e de certa forma de suas vidas.
Aquela manhã, porém, estava fadada a ser diferente, seria um marco na vida de “Truit”, porque um belo dia ele percebera que estivera se enganando há muito tempo, porque quem disse que ele não tinha o direito de ter a companhia de uma mulher, enfim de sexo. Toda noite ao longo daqueles anos se recolhera à sua cama onde a solidão o massacrava e ele pensava em todos se fechando na alcova de seus quartos, onde extravasavam suas luxúrias, enquanto ele só podia invejá-los amofinado na solidão.
Ralph não saberia dizer como a notícia vazou, mas todos sabiam que o trem traria uma mulher e que ela era aguardada com muita expectativa por Truit, e por todos os lugares em que passou pôde ver nos olhos e perceber nos cochichos maliciosos a tensão que o acontecimento trazia àquele, 17 de outubro de 1907.
Marcara encontrá-la às quatro horas na estação ferroviária, mas o trem estava atrasado. No trajeto entre sua casa e a estação lembrava que “houve uma época em que se apaixonava em cada esquina. Perseguia coisas tão pequeninas quanto uma fita encantadora ou um chapéu. Um andar leve, o roçar da barra de uma saia, uma mão enluvada espantando uma mosca de um nariz sardento haviam sido suficientes, haviam outrora sido o que era preciso para fazer disparar o coração”. Depois de tudo uma coisa era certa “o trem viria atrasado ou não, e tudo que havia acontecido antes de sua chegada seria antes, e tudo que viesse depois seria depois”.
Decorara a carta que ela lhe enviara, entendia que a mulher da foto era simples, desprovida de beleza, mas que também não era feia, amara mesmo sua sinceridade e estava apaixonado, não podia explicar como e porque, mas estava ansioso como um colegial, suas pernas estavam bambas, mostravam sua insegurança e as palavras da carta soavam claramente em sua mente: “sou uma mulher simples e honesta. (...) Vi doenças mortais além do que é imaginável. (...) Não sou uma menininha. Passei a vida sendo filha e há muito tempo desisti de qualquer esperança de ser esposa. (...) e se o senhor me aceitar, eu irei”.
Pois é, o convite está feito, se você quiser esta será uma leitura inesquecível, com um final inimaginável, dramático, mas honesto.

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