Itaúna, 19 de novembro de 2017

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19 de agosto de 2019 às 10h00

TIAZINHA, ...uma grande paixão

- “Segura à lotação! Oi, segura a lotação pelo amor de Deus, gente!” – Gritava o Geraldinho desembestado rua afora, lá no pacato bairro de Santanense. Com a marmita vazia sacolejando dentro da desbotada mochila azul, o tecelão da Cia. Tecidos Santanense esgoelava para os companheiros que embarcavam no ônibus da Redentor rumo ao Bairro Morada Nova, em Itaúna.
- “É! O Geraldinho tá atrasado e se ele perder esta lotação e não vê o programa da Tiazinha na TV, amanhã nois vai sofrer na mão dele” - exclamou um colega de trabalho, ao mesmo tempo em que sinalizava para que o motorista não arrancasse o ônibus, cheio até à tampa. Excelente funcionário e encarregado da seção de manutenção, o tecelão comandava com pulso forte uma equipe de quinze funcionários na manutenção de todo o maquinário da Fábrica. De pouca conversa, não tolerava brincadeiras no horário de serviço e, constantemente, era elogiado pelo seu gerente, bem como por alguns diretores da fábrica.
- “Este Geraldinho sabe como regular um tear. Nem na Suíça, onde compramos este maquinário, vi mecânico igual” – afirmava com frequência o Dr. Décio Gonçalves, um dos Diretores da empresa, quando de suas visitas à fábrica. Mas fora do seu horário de serviço o tecelão se modificava. Era brincalhão e não escondia de ninguém a sua grande paixão por uma atriz da TV Bandeirantes, que tinha um programa na emissora. Na época o programa de grande audiência era apresentado por uma esbelta morena que de espartilho preto, bota, chicote e uma singela máscara cravejada de lantejoulas, arrancava suspiros e mais suspiros dos telespectadores: era a Tiazinha. Casado há cinco anos e sem filhos, residindo numa casa financiada pela Caixa Econômica Federal no Bairro Morada Nova, o Geraldinho tinha na televisão o seu grande passa tempo e foi assistindo o programa do Luciano Huck que ele viu pela primeira vez a bela morena mascarada. Foi paixão à primeira vista. A paixão não contida extravasou os limites da casa e em pouco tempo era do conhecimento de todos do bairro onde morava.
- “Não é possível, né Lucineide, qui ocê não sente ciúmes do seu marido e bota freio nesta história dele ficar falando o tempo todo nesta tal de Tiazinha”. - exclamavam com frequência as amigas mais chegadas.
- “E eu nem ligo”. – respondia, dando de ombros, a esposa do tecelão, uma morena baixinha com seus 86 quilos, busto grande, bunda larga e uma saliente papada que dificultava uma visão mais ampla do seu queixo miúdo.
- “Num pode é pegar” – tornava a exclamar a morena gordinha meio a uma gargalhada sem graça que denunciava uma pontinha de ciúmes. E assim os dias e semanas foram passando e o Geraldinho se babando em frente da TV de 20 polegadas, assistindo as aventuras da Tiazinha, enquanto a Lucineide se desdobrava na cozinha para preparar o jantar e a marmita reforçada para o almoço do marido no dia seguinte.
Num sábado, como de costume, enquanto fazia as unhas em um salão próximo à sua residência, a Lucineide, a muito custo foi convencida a dar um basta naquela paixão esquisita do marido.
- “Não é por nada não, Lucineide, mas só tem um jeito de ocê mudar o comportamento do seu marido”. - exclamavam as amigas.
- “Mas como, gente, se ele não tem outro assunto senão essa tal de Tiazinha?”.
- “O jeito é ocê se vestir tal qual a Tiazinha, igualzinha ela aparece na televisão!”.
- “Mas vestir aquela roupa com esses meus 86 quilos nem pensar” – retrucou a Lucineide.
- “É o único jeito, minha amiga. Ou ocê veste como a outra ou vai acabar perdendo o seu marido”. Convencida pelos argumentos das amigas, a Lucineide amanheceu no dia seguinte na Praça da Lagoinha e, de loja em loja, em pouco tempo comprou a roupa completa da rival da TV. O chicote, o item mais difícil, foi comprado na Cooperativa e a máscara preta, toda bordada de lantejoulas douradas, na Loja do Expedito Lima. Com as compras debaixo do braço rumou apressada para o Morada Nova, pois dentro de algumas horas o marido deveria chegar todo esbaforido em casa. Já toda vestida, com seus 86 quilos estufando dentro do espartilho, meia e máscara preta e chicote na mão, fechou a janela deixando o pequeno quarto só na penumbra. No horário de sempre o ranger do portão da entrada da casa e os passos apressados denunciando a chegada do marido, fez com que a Tiazinha do Morada Nova se estirasse na confortável cama de casal numa pose exaustivamente ensaiada durante todo o final de tarde daquele dia. Com o coração acelerado, a boca caprichosamente coberta por um sensual batom vermelho, armou um sorriso e aquela pose, aguardando ansiosa o resultado da bela surpresa que havia preparado para o marido.
- “Ele vai adorar” - raciocinava nos poucos segundos que anteviam ao encontro surpresa que ela, com a cumplicidade das amigas haviam preparado. O virar apressado da maçaneta da porta do quarto fez o seu coração ficar pequeno e disparar, e uma felicidade sem tamanho já se apossava do seu corpanzil, espremido dentro daquela alegórica fantasia, quando escutou a voz tremula e carregada de surpresa do marido que embocava quarto à dentro: - “Uai Zorro, o que qui ocê tá fazendo aí na minha cama!?”...

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