Itaúna, 18 de dezembro de 2018

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24 de novembro de 2018 às 07h00 - Atualizado: 15 de dezembro de 2018 às 07h41

RÉQUIEM PARA UM ENCONTRO

Caía uma chuva fininha quando eu deixei a Matriz de Sant’Ana. De guarda-chuvas aberto, passos reflexivos, demoradamente fitei o meu entorno, com o cenário banhado pela iluminação da praça sob a garoa noturna, desvelando uma cena que inspirava poesia e me remetia a introspeções. Atrás de mim, o relógio da Matriz soou suas firmes badaladas... Oito vezes; completando a cena.
Estanha a Vida. O Urtigão havia me encomendado uma missa solene, que fosse cantada pelo nosso côro masculino, para a memória de sua mãe, dona Graciana Coura de Miranda, cuja biografia havia lançado há pouco na cidade. Obra que contou com minha participação na feitura de seu prefácio, pela generosidade do autor. E agora, eu estava deixando a igreja, após cantarmos a missa solene que ele desejava; mas não para a sua mãe e, sim, para o seu sétimo dia.
Nunca senti tanto a morte de um amigo que – na verdade – havia conhecido há tão pouco tempo (uns dois anos). Prova de que não é a duração e, sim, a qualidade de nossas relações que as graduam. O Zé Silvério foi um feliz achado! Dois sujeitos bem falantes e de personalidade forte, posso dizer. Perambulamos algumas vezes pelos meus habituais botecos e bares da cidade. Ao final dos colóquios – já beirando a madrugada – deixava-o no Grande Hotel. Foram momentos prazerosos, interessantes, ricos, de muito aprendizado. Ali estava um camarada com uma memória brilhante e que desenhava para mim cenas bucólicas e saborosas da Itaúna das décadas de 50 e 60 do século passado, quando por aqui viveu. Compartilhou comigo sua fecunda experiência no ramo da hotelaria, quando conheceu ilustres personalidades que hoje figuram nos nossos livros de História, como Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, Milton Campos, Clóvis Salgado e tantos outros.
Inteligente, culto, perspicaz, ácido, lúcido... Algumas das características do nosso “Urtigão” ou “Camelo”, enfim, do Zé Silvério. Tinha nome de um quase-santo: Monsenhor Horta ou Monsenhor José Silvério Horta – tido como santo pelo povo de Mariana e arredores. Agradeço imensamente a outro bom amigo, o Historiador Charles Aquino (leia-se “Itaúna em Décadas”), que teve a feliz iniciativa de me apresentar a ele. Costuramos uma boa e fecunda amizade. Vez por outra me telefonava e trocávamos figurinhas. Impagável e deliciosa foi sua entrevista – que eu e o Confrade Jonas Vieira (escritor, psicólogo, teatrólogo, sexólogo, artista plástico, biógrafo de Pedro Malan e atirador de facas) tivemos a heroica iniciativa de fazer, em nosso programa “Sintonia Cultural”, na Rádio Santana FM. Foi uma tarde hilariante e de preciosas informações!
Sinto que o Urtigão estava, na verdade, fazendo o caminho inverso de sua feliz existência. O retorno às nossas barrancas, as crônicas e “causos” do passado, a homenagem à sua mãe, o levantar de suas memórias. Urtigão não estava aqui à toa. Ele estava – mesmo que de maneira inconsciente – preparando a sua volta. O seu retorno definitivo.
Ao prestar a atenção na Liturgia de sua Missa de Réquiem (ou da Ressurreição ou do Sétimo Dia – como queiram) tudo me remetia à sua feliz memória. “...teu primeiro amor. Lembra-te de onde caíste! Converte-te e volta à tua prática inicial...”. Trecho da leitura extraída do livro do Apocalipse: de fato, um Urtigão a converter-se, a retornar para as terras de Sant’Ana, para suas raízes. Para o reencontro definitivo com o seu passado – seu primeiro amor! Vejamos o salmo do dia: “Eis que ele é semelhante a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. Eis que tudo o que ele faz vai prosperar”. Sim, nosso Urtigão deu bons e variados frutos e em muito prosperou. E na passagem do cego de Jericó, citado no evangelho de Lucas (o pai do Zé Silvério era cego), ouvi Nosso Senhor perguntando para o Urtigão: “Que queres que eu faça por ti?”. E como o cego de Jericó, nosso Zé Silvério respondeu: “Senhor, eu quero enxergar de novo”. E, então, seus olhos se abriram para a Eternidade. Termino com o responsório do salmo proclamado: “Ao vencedor concederei comer da Árvore da Vida”.

*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/
Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e
“O que a vida quer da gente é coragem”/
Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”
Cidadão Honorário de Itaúna

Prof. Luiz Mascarenhas - Réquiem para o Padre Nilo

ITAÚNA amanheceu mais pobre em seu cenário humano na manhã cinzenta do sábado, dia 12 de março do corrente ano. Partia para a eternidade o nosso tão querido Pe. Nilo.
Deixo aqui, a minha pequena contribuição sobre a Vida deste homem, com quem convivi desde a minha infância. Lembro-me bem da calça adidas, com as três listras, a camisa de malha branca, os tênis e um fusquinha que não me lembro bem a cor.
Todos os alunos postos em fila na linha vermelha da quadra e em silêncio. Seis horas da manhã. O relógio da Matriz de Sant’ana ecoava por toda a Itaúna a sua primeira badalada. E ele começava sua aula de Educação Física: “o anjo do Senhor anunciou a Maria...”
Nilo Caetano Pinto nasceu no distrito de Antônio dos Santos, em Caeté, Minas Gerais, em 24 de março de 1930. Era o filho mais velho de Carlito Caetano Pinto e Antônia Luiza Dinis e teve mais seis irmãos. Órfão de pai aos 11 anos, começou a trabalhar para ajudar em casa, sem deixar de lado os estudos, que seguiu até graduar-se em Educação Física pela UFMG.
Chegou em nossas barrancas ( graças a uma indicação do Cel. José Lázaro Guimarães- cunhado do Dr. Guaracy), já casado com Florescena Diniz Guimarães Pinto e tiveram teve oito filhos, dos quais conheceu 12 netos e um bisneto.
O nosso então Prof. Nilo lecionou na Escola Normal, a Escola Estadual de Itaúna, por 34 anos, como professor e vice-diretor. No Colégio Santa’Ana ficou durante 26 anos.
Nilo sempre foi um homem de Fé. Sempre engajado nos movimentos da Igreja. Ajudava com sua Família na Igreja da Piedade e na comunidade Sagrada Família do Bairro Cerqueira Lima, pois residia naquela região.
Em 1982, dona Florescena, sua esposa, veio a falecer. E aos 52 anos, ainda criando os filhos, resolveu dizer sim ao chamado desse Deus. Assim sendo, encaminhou-lhe Dom Cristiano Penna para a Faculdade de Teologia, da PUC Minas, em Belo Horizonte. Foi ordenado padre por Dom José Belvino do Nascimento, aqui em Itaúna no ano de 1990, no Poliesportivo JK.
Muitos o chamavam de “o homem dos 7 sacramentos”. Para nós católicos, os sacramentos são sinais visíveis da graça de Deus. São veículos dessa graça. E a maioria dos homens parte deste mundo com 6 sacramentos; pois ou se tem o sacramento do matrimônio ou o da Ordem ( que confere o sacerdócio católico).
Pois bem. O nosso Pe. Nilo partiu daqui na plenitude da graça! Com todos os 7 sacramentos! O último foi-lhe ministrado no leito do hospital, a unção dos enfermos, que o preparou para ir de encontro a Deus.
Em meio a tantas crises; eis o exemplo de Padre Nilo para nós. Exemplo de pai, de padre, de fidelidade, à Deus, à sua Palavra sobretudo. Enquanto esposo, honrou plenamente seu casamento sendo-lhe fiel até a morte de sua esposa. Enquanto padre, honrou plenamente o seu sacerdócio, sendo-lhe eternamente fiel. Enquanto homem, honrou plenamente a espécie humana, sendo humano com os humanos!
Descanse em Paz meu Pe. Nilo. Recebe agora a coroa da Justiça, a qual o Senhor, Justo Juiz, lhe deu naquele dia!
Misture sua luz a das estrelas...cintile quando o dia clarear.
Réquiem aeternam dona eis Domine, et lux perpetua luceat eis.

*paroquiano de Sant’ana

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