Itaúna, 14 de dezembro de 2017

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23 de setembro de 2017 às 07h00 - Atualizado: 07 de outubro de 2017 às 10h17

RAMÉ... e o bar dos Garcias

- “Bola sete na caçapa do meio”.
- “Dobro a aposta se você acertar”- retrucou o Cassianinho, ao mesmo tempo em que cruzava os dedos da mão direita.
Já era quase meia-noite, naquela quarta-feira feira gorda do mês de fevereiro, próximo ao carnaval e os poucos clientes ainda presentes assistiam em silêncio a uma bela partida de sinuca no bar do Ariosvaldo, lá no Bairro dos Garcias. Após verificar todas as posições e a angulação correta entre a bola e a caçapa, calmamente passou o giz azul na ponta do taco e se preparou para a jogada decisiva.
- “Aposta dobrada né, Cassianinho?” – Confirmou antes de iniciar a jogada.
- “Ô Camelo, você ouviu, né! Então fica de testemunha”.
Após o vai e vem do taco, só se ouviu, meio ao silêncio total, o barulho seco da batida e a bola sete desaparecendo no fundo da caçapa, bem como, a risada escandalosa e peculiar do Ramé.
- “Vamos mais uma, Cassianinho? Te dou dez pontos de frente!” – Exclamou o Ramé em tom de gozação, pois estavam jogando desde as quatro horas da tarde e ele havia ganhado todas as partidas.
- “Pera aí, pessoal!” – Interveio o dono do estabelecimento comercial. “Desde as dez horas da noite que vocês estão falando que é a última partida. E eu preciso fechar o bar”.
Levanto cedo e o meu movimento maior é na parte da manhã com a venda de guloseimas, doces e biscoitos pros mininos. Vocês vão me desculpar, mas, vou ter de fechar o Bar agora.”
- “Só mais uma, seu Ariosvaldo!” – Tentou persuadi-lo o Ramé.
- “Nem mais uma ou mais duas! Ou vocês param de jogar ou então me comprem o Bar”.
– Exclamou já meio exaltado.
- “Então eu compro o Bar”. - Exclamou o Ramé, para espanto de todos os presentes.
- “Quanto você quer pro seu buteco?”.
Gaguejando e com o semblante demonstrando ter levado um grande susto, tentou se refazer, mas já era tarde demais. O Ramé enfiou a mão no bolso e tirou um pacote de notas e insistiu:
- “Fala! Quanto você quer pro buteco, homi?”.
- “Cinquenta contos”. (que era um dinheirão na época) - gaguejou o baixinho careca. “Por cinquenta contos o Bar é seu”.
-“Então é meu”- emendou o Ramé, passando ao assustado comerciante uma bolada de dinheiro e colhendo a assinatura do mesmo em uma folha de caderno com o testemunho do Camelo e do Cassianinho.
Em poucas horas, como um rastilho de pólvora, a notícia se espalhou pelos bares de Itaúna. Chegou primeiro no Bar do Automóvel Clube e logo em seguida no Bar Azul, Bar Rodoviário e na Petisqueira, comandada pelo Divino, que naquele momento estavam abarrotados de clientes até na tampa. Na Zona Boêmia foi questão de minutos e antes das três horas da madrugada as mulheres de vida fácil fervilhavam em pequenas rodinhas e o comentário era só um: o Ramé havia comprado um Bar lá nos Garcias, e ia inaugurá-lo na sexta-feira. Foi uma festa, e lá estavam quase que diariamente, o Jorge Turco, Jadir Marinho, Dr. Hélio, Zé do Dezy, Moacir Mariano, Ronaldo Nogueirinha, Zé da Telefônica, Pedro Calambau, Adolfo Mendes, Ricardo Pinta, Ronaldo Passarinho, Jaci Gamelão e outros tantos. Após as duas da manhã o mulheril dos puteiros do Sissi, Jane e Zizi e Cantinho do Céu baixavam lá e a farra ia até o dia clarear.
Revoltados com a algazarra e o movimento nada familiar em um bairro até então muito tranquilo a população se revoltou e em uma noite de sexta para sábado, armados de foices, facões e machados cercaram o Bar exigindo mais respeito e o fim da farra.
Tranquilamente, e em pé em frente ao estabelecimento comercial, todo iluminado com lâmpadas vermelhas, o Ramé ouviu atentamente as reclamações dos exaltados moradores do pacato bairro e naquele seu jeitão simples e descompromissado exclamou: -“Uai, se o problema de vocês é o Bar, podem ficar com ele!”. Para espanto de todos, pegou o dinheiro do caixa, entrou no carro e saiu tranquilamente em direção ao Centro de Itaúna, para nunca mais voltar ao seu ex-estabelecimento comercial ............

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