Itaúna, 15 de novembro de 2018

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05 de maio de 2018 às 08h00 - Atualizado: 26 de maio de 2018 às 11h00

Paulista

Nascido e criado em Itaúna, o Paulo Guilherme, filho do Dr. José Campos e da Dona Alba, é mais conhecido como Paulista entre os amigos. Não sei a origem deste apelido, mas que pegou, pegou... E até hoje muitos ainda o chamam assim. Quando adolescente o Paulo Guilherme, ou melhor, o Paulista, em um acidente dentro da cidade, bateu fortemente com a cabeça no painel do carro, onde era um dos passageiros e, em função disto, dizem, que perdeu parte da audição, ficando como se diz, meio surdo, ou melhor, com certa dificuldade para entender os interlocutores mais distantes.
Na época, mesmo sendo o pai médico, isto foi relevado e ele sem maiores problemas, tocou a vida formando em psicologia, casando e indo morar e trabalhar em Fortaleza na empresa do grande itaunense e amigo, Fernando Marinho. Nas suas vindas a Itaúna, nas conversas nos bancos da Praça da Matriz ou nos barzinhos da Jove Soares, era comum e divertido ver o Paulista rir sem entender o porquê dos outros estarem rindo ou mesmo pescoçar sobre o grupo de amigos, quando alguém estava conversando ou contando uma piada para tentar entender o que era falado. Realmente ele quase não entendia o que era falado quando o interlocutor estava a mais de um metro de distância. “É surdo como uma porteira”, como sempre falava o Carlinhos Myhrra. Boa praça e muito tranquilo, nunca ligou para as brincadeiras e gozações dos amigos, apesar dos apelos de muitos para que procurasse um otorrino, pois, nesta área, a medicina tinha avançado muito e já existiam aparelhos que, adaptados na altura da orelha, restabeleciam cem por cento da audição. De tanto escutar os apelos dos amigos mais chegados o Paulista, no maior sigilo, marcou uma consulta com um famoso otorrino em Belo Horizonte. Consulta feita, lhe foi indicado um aparelho que, adaptado dentro da orelha, lhe devolveria a audição perdida. Nos testes na clínica em Belo Horizonte o Paulista passou a escutar tudo. Era uma maravilha, e acabaria de vez aquele hábito de esticar o pescoço no meio do grupo para tentar entender o que estava sendo falado, rir sem entender porque os outros estavam rindo ou mesmo não escutar o chamado dos amigos de “Paulista, ô Paulista”, quando estava atravessando a Praça da Matriz, rumo à Banca do Turruca para buscar o jornal. Dentro do ônibus da Viação Itaúna ele estava maravilhado com os barulhos vindos da estrada, que antes nunca tinha reparado. Eram freadas, buzinadas e ronco de motores de carros, caminhões e motos que passavam pelo ônibus.
- “Agora eu quero ver!” Pensava com seus botões. “Quando eu chegar ao banquinho da Praça da Matriz e passar a escutar tudo o que eles estão falando vai ser um alvoroço. Já estou vendo a cara de espanto do Agostinho do Fórum, do Dora, do Renato, do Waldemar, do Zezé Contador, do Lucimar, do Divino da Petisqueira e do Ronaldo Nogueirinha, meu cunhado. Ah se vai!”
Aqui cabe uma explicação para os leitores da FOLHA: diariamente o grupo de amigos citados acima, se reúne entre 9 e 10 horas no banquinho da praça, próximo à Igreja da Matriz para jogar conversa fora, e o Paulista estava sempre lá, pescoçando sem entender direito o motivo das gargalhadas ou das conversas atravessadas do grupo. Já em Itaúna, na manhã seguinte, o Paulista rumou cedo para a Praça da Matriz, e já na Silva Jardim, na altura do Fórum, avistou o grupo de amigos em volta do banquinho da Praça. No início havia planejado chegar de fininho sem comentar sobre o aparelho de audição, instalado, para ouvir o que eles comentavam e só depois revelar o seu segredo, mas a emoção era tanta que ele não se conteve e já a alguns metros do grupo foi revelando tudo.
- “Olha pessoal! Coloquei um aparelho no ouvido e agora estou escutando tudinho, tudinho.” Sem dar espaço para o grupo de amigos, pego de surpresa, que se entreolhavam, pois só o Paulista falava principalmente, das maravilhas de poder escutar cem por cento novamente, bem como da competência do médico que o havia atendido em Belo Horizonte.
- “Agora vocês podem falar o que quiserem que eu vou entender tudo perfeitamente e só vou rir do que eu realmente achar engraçado, viu Divino da Petisqueira!”.
- “E ocê Agostinho do Fórum pode parar de cochichar com o Ronaldo meu cunhado, viu?”. Vou tá escutando tudinho! Até o que não precisa, tá!?
No breve silêncio que tomou de surpresa o grupo de amigos, pois só o Paulista falava, o Dora levantou e perguntou há mais ou menos um metro de distância: “ô Paulista, quanto custou este tal aparelho?”.
E uma gargalhada geral tomou conta do banquinho na Praça quando o filho do Dr. José Campos e da Dona Alba levantou o braço esquerdo e olhando fixamente para o relógio de pulso, exclamou solenemente: “ô Dora, faltam quinze pras dez”...........

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