Itaúna, 13 de novembro de 2018

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09 de junho de 2018 às 07h00 - Atualizado: 30 de junho de 2018 às 09h51

O TRIBUNAL

Há alguns anos atrás, na área que compreende os bairros Alto do Rosário, Vila Mozart, Nogueirinha e Santo Antônio, um grupo de traficantes que dominava a região, para preservar o “seu negócio” e evitar ações frequentes da polícia, criou o seu próprio tribunal, com o objetivo julgar os atos ilícitos dos moradores e com isto diminuir a criminalidade na região e afastar as ações da polícia que poderiam prejudicar os seus negócios. Era o tribunal do crime, conhecido e temido por todos.
Casos de roubos, estupros, agressões e outros mais, quando praticados por moradores da região, eram julgados e punidos severamente por este tribunal formado exclusivamente por traficantes. De acordo com o crime praticado, o autor do mesmo era capturado, julgado e punido em um lugar secreto. A população sabia das ações praticadas, pelo zum zum zum que corria pelas ruas, mas temerosa das represálias, se mantinha em silêncio. Normalmente o julgamento era coletivo com três, quatro ou até cinco delinquentes e duras penas eram aplicadas no mesmo dia e no local do julgamento. Naquela noite, encapuzado, para evitar que identificasse o local do júri, com as mãos amarradas para trás, o primeiro réu foi introduzido na pequena e mal iluminada sala e logo em seguida recebeu o veredicto: - “Djalmão, este moleque aqui tá cantando e mexendo com mulher casada, e tá cantando de galo aqui no bairro”. Uma pouca vergonha, né?! “Estupra ele para que aprenda a respeitar a mulher dos outros.”. Após retirar o capuz que cobria o seu rosto, o Dermeval, morador do Alto do Rosário, viu aquele mulato musculoso de um metro e oitenta na sua frente com um facão na mão, com uma cara de poucos amigos e sinalizando com a cabeça que havia compreendido a ordem recebida.
Acomodado em um pequeno banco de madeira nos fundos da sala mal iluminada, sem o capuz e com as mãos amarradas, o Dermeval era só lamentação.
- “Senhor do bom Jesus, o que eu fui fazer?”.
- “Onde eu tava com a cabeça para sair por aí cantando mulher dos outros?”.
- “E agora, com que cara eu vou andar pelas ruas e bairros da cidade? Todo mundo vai ficar sabendo o que aconteceu comigo aqui hoje!”.
- “Que vergonha meu Deus do Céu! Vou ter de mudar de Itaúna!”.
- “Prefiro morrer de que sofrer uma humilhação desta!”.
Estava lá sozinho, sentado no tosco banco de madeira se lamentando e aguardando a dura e vergonhosa pena a ser cumprida, quando foi anunciado o segundo réu da noite: - “Djalmão, este desalmado aqui foi pego bulinando uma garotinha de seis anos, sua vizinha!”. “Capa ele com o facão e joga o bililiu dele pros cachorros.”.
Empurrado com força, o segundo réu foi sentar ao lado do Dermeval e num pranto só, pedia clemência e perdão pelo ato que havia cometido. E foi só o segundo réu se assentar no tosco banco de madeira, que o terceiro réu entrou empurrado sala afora: - “Djalmão, este safado aqui tá arrombando e roubando as casas da Vila Mozart!”. “Corta a mão direita dele com o facão e fura o olho esquerdo com o garfo para ele nunca mais mexer nas coisas dos outros!”.
Sentado no banco de madeira, já com as calças molhadas de tanto medo, e ao mesmo tempo aliviado com a pena recebida, quando comparada com as dos outros dois réus que choramingavam ao seu lado, o Dermeval, temeroso de que o carrasco Djalmão, que amolava o facão em um esmeril nas proximidades do banco, confundisse as punições proferidas a cada réu, se encheu de coragem e exclamou: -“Senhor Djalmão, desculpe o atrevimento de te dirigir a palavra, mas é só para relembrar pro senhor não esquecer, quem ficou de dar o fiofó aqui fui eu, viu!”.............

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