Itaúna, 25 de maio de 2019

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06 de abril de 2019 às 07h00 - Atualizado: 27 de abril de 2019 às 08h23

O rego da Jove

Trata-se de verdade inexorável. Tão logo o firmamento concentra-se de nimbus, cirrocumulus e cirrostratos, que a forte precipitação pluviométrica desaba imperiosa sobre as barrancas de Sant’Anna e o rego entope.
Ei-lo: o rego atochado! De água....
Nas peripécias da modernidade, o rego entumecido pelas torrentes vira alvo fácil de selfies e pequenos vídeos de incautos transeuntes ou moradores das cercanias, que o vislumbram das lentes de seus celulares e o postam de inopino nas múltiplas redes sociais como películas hollywoodianas da tragédia barranqueira.
O rego entupido! “Ó tempore! Ó mores!”
De súbito, erguem-se as mais variadas e pitorescas ponderações. Ora, ora, afinal, porque o rego entope?
Nada mais desconfortável do que o rego obstruído. Desembargue-se o rego!
As autoridades constituídas da municipalidade logo se reunirão em torno do rego. O rego será estudado, esquadrinhado, pesquisado...milimétrica e cartesianamente! Talvez até uma legislação surja para regular o uso do rego. O que é preocupante, em um país tão engarrafado por um cipoal de leis, é que surja mais uma – mesmo que municipal – regulando os regos por aí. Emergirão passeatas pelo “rego livre”. Bem, sendo um rego público, deverá mesmo vir regulado. Já os regos privados, que sejam utilizados como se aprouver a seus proprietários - desde que sem prejuízo para as regueiras públicas de Blackstone City. Enfim, chega-se ao conclusório de que cada um cuide do seu rego e deixe a vala do outro em paz.
O rego da Jove é antológico. Já foi aberto. Desnudo aos olhos do público, sem causar vexames; contudo causava náuseas devido ao odor pútrido que se lhe exalava. Era um rego mau cheiroso. Contudo, veio do ilustre prefeito Antônio Augusto de Lima Coutinho o sonho visionário de que ali, nos fundos dos quintais, brotaria entre as bananeiras e os frondosos pés de manga a mais concorrida via da cidade. E o rego seria devidamente tapado. Mal sabia que tapado e entupido...
Pobre cel. Jove Soares (1868-1953), ver seu nome associado a enchentes de águas furtadas nada poéticas e empesteadas. Pois a tempo seco, vê-se ratazanas e baratas e outros indivíduos do reino dos artrópodes e afins, disputando o espaço com os viandantes da prainha. Isso sem falar dos fiéis discípulos da seita “crossfit”, que anda operando milagres na terrinha, que por ali correndo, desviam dos camundongos como se barreiras móveis fossem- deve ser bem divertido!
Não nos cabe apurar os culpados. Não são de agora os problemas da Avenida Jove Soares. Colhe-se hoje a má ocupação do solo das adjacências do Córrego do Sumidouro. O nosso “Arrudas” tupiniquim. Toma-se da Natureza e ela requer de volta seu espaço.
Cuidemos, pois, do rego da Jove. Afinal de contas, durma-se com um barulho desses. Rego limpo, povo feliz!
“Après nous le déluge...”


*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/
Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e
“O que a vida quer da gente é coragem”/
Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”
Cidadão Honorário de Itaúna

Prof. Luiz Mascarenhas - Prof. Luiz Mascarenhas

ITAÚNA amanheceu mais pobre em seu cenário humano na manhã cinzenta do sábado, dia 12 de março do corrente ano. Partia para a eternidade o nosso tão querido Pe. Nilo.
Deixo aqui, a minha pequena contribuição sobre a Vida deste homem, com quem convivi desde a minha infância. Lembro-me bem da calça adidas, com as três listras, a camisa de malha branca, os tênis e um fusquinha que não me lembro bem a cor.
Todos os alunos postos em fila na linha vermelha da quadra e em silêncio. Seis horas da manhã. O relógio da Matriz de Sant’ana ecoava por toda a Itaúna a sua primeira badalada. E ele começava sua aula de Educação Física: “o anjo do Senhor anunciou a Maria...”
Nilo Caetano Pinto nasceu no distrito de Antônio dos Santos, em Caeté, Minas Gerais, em 24 de março de 1930. Era o filho mais velho de Carlito Caetano Pinto e Antônia Luiza Dinis e teve mais seis irmãos. Órfão de pai aos 11 anos, começou a trabalhar para ajudar em casa, sem deixar de lado os estudos, que seguiu até graduar-se em Educação Física pela UFMG.
Chegou em nossas barrancas ( graças a uma indicação do Cel. José Lázaro Guimarães- cunhado do Dr. Guaracy), já casado com Florescena Diniz Guimarães Pinto e tiveram teve oito filhos, dos quais conheceu 12 netos e um bisneto.
O nosso então Prof. Nilo lecionou na Escola Normal, a Escola Estadual de Itaúna, por 34 anos, como professor e vice-diretor. No Colégio Santa’Ana ficou durante 26 anos.
Nilo sempre foi um homem de Fé. Sempre engajado nos movimentos da Igreja. Ajudava com sua Família na Igreja da Piedade e na comunidade Sagrada Família do Bairro Cerqueira Lima, pois residia naquela região.
Em 1982, dona Florescena, sua esposa, veio a falecer. E aos 52 anos, ainda criando os filhos, resolveu dizer sim ao chamado desse Deus. Assim sendo, encaminhou-lhe Dom Cristiano Penna para a Faculdade de Teologia, da PUC Minas, em Belo Horizonte. Foi ordenado padre por Dom José Belvino do Nascimento, aqui em Itaúna no ano de 1990, no Poliesportivo JK.
Muitos o chamavam de “o homem dos 7 sacramentos”. Para nós católicos, os sacramentos são sinais visíveis da graça de Deus. São veículos dessa graça. E a maioria dos homens parte deste mundo com 6 sacramentos; pois ou se tem o sacramento do matrimônio ou o da Ordem ( que confere o sacerdócio católico).
Pois bem. O nosso Pe. Nilo partiu daqui na plenitude da graça! Com todos os 7 sacramentos! O último foi-lhe ministrado no leito do hospital, a unção dos enfermos, que o preparou para ir de encontro a Deus.
Em meio a tantas crises; eis o exemplo de Padre Nilo para nós. Exemplo de pai, de padre, de fidelidade, à Deus, à sua Palavra sobretudo. Enquanto esposo, honrou plenamente seu casamento sendo-lhe fiel até a morte de sua esposa. Enquanto padre, honrou plenamente o seu sacerdócio, sendo-lhe eternamente fiel. Enquanto homem, honrou plenamente a espécie humana, sendo humano com os humanos!
Descanse em Paz meu Pe. Nilo. Recebe agora a coroa da Justiça, a qual o Senhor, Justo Juiz, lhe deu naquele dia!
Misture sua luz a das estrelas...cintile quando o dia clarear.
Réquiem aeternam dona eis Domine, et lux perpetua luceat eis.

*paroquiano de Sant’ana

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