Itaúna, 24 de outubro de 2017

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30 de setembro de 2017 às 07h00 - Atualizado: 21 de outubro de 2017 às 10h10

O PASTOR

Este não foi o primeiro livro de Frederick Forsyth que comentei, mas foi o primeiro que li desse fabuloso autor. Diversamente da impressão que me causou o primeiro livro comentado, este foi uma grata surpresa, porque foi além das expectativas e de certa forma revelador.
Trata-se de uma novela contada em primeira pessoa, o nome, deveras, à primeira vista pode levá-lo a concluir que é um livro religioso. Conhecendo o autor você ficará tentado a tirar a prova e descobrirá que não é este o caso, sem deixar de sê-lo.
Estamos em dezembro de 1957, mais especificamente na noite de natal. Charlie piloto da RAF está prestes a decolar. Pretende passar a noite de natal em solo britânico reunido com sua família, onde todos o aguardam.
A base aérea de CELLF fica na Alemanha Ocidental e isto significa cruzar o canal da mancha, certamente uma travessia auspiciosa, que já fora feita outras vezes. Na torre de controle todos já estão se dirigindo para seus lares e o operador não vê a hora de encerrar o expediente, e para isso basta liberar a pista para Charlie. O jato que pilota recebe a chamada “Charlie Delta” e para isso responde “Charlie Delta... Controle” recebendo assim: “licença para levantar voo.”.
O vampire está a caminho e o motor Goblin começa a dar o ar da graça, pois o gemido baixo passa a soar como um ronco até virar um grito e por fim um clamor. Já tinha tudo planejado e revisado estacionaria a altitude de 8.000 metros e mantendo a rota era só observar a velocidade de 458 nós, e ao passar pelo espaço aéreo holandês mudar para o canal “D” informando a presença, daí rumo ao mar do Norte e completar a travessia.
Segundo o plano todo o trajeto seria superado com sessenta e seis minutos de voo e o Vampire tinha combustível suficiente para ficar oitenta minutos no ar, então dava com sobra. Uma conferida na bússola elétrica e fixação num rumo de 265 graus, tudo corria tranquilo, já passara o território holandês e adentrara o Mar do Norte. Tinha um tempo de voo de 21 minutos. Com dez minutos sobrevoando o Mar do Norte ele compreendeu que tinha um problema, não “havia percebido que o barulho murmurante” cessara nos fones e que só tinha um vácuo de silêncio total.
Foi quando conferiu à bússola, ela girava para leste, oeste, sul e norte com absoluta imparcialidade. Nervoso e completamente fora do espírito de natal, ele rogou uma praga à bússola e ao homem do controle de qualidade que aprovara o funcionamento de cem por cento do aparelho. Sem bússola seria uma navegação às cegas apesar da visibilidade absoluta, dado pelo luar deslumbrante. No entanto, não se pode esquecer que ainda assim seria pilotar à noite, sem referência, porque acima o céu abobadado e em abaixo o mar revolto.
Mesmo com o desfavor da sorte, a coisa não era muito grave, porque em breve poderia chamar Lakenheath pelo rádio e eles dariam instruções de segundo em segundo até efetuar o pouso sem maiores problemas, o que para um aeroporto bem equipado não era nenhuma dificuldade até com o pior tempo imaginável.

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