Itaúna, 20 de outubro de 2018

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07 de abril de 2018 às 07h00 - Atualizado: 05 de maio de 2018 às 09h58

O CHIFRUDO

Cresceram no mesmo bairro, fizeram o Primário na mesma sala do “Grupo de Baixo”, o Ginasial no Colégio Sant’Ana e o curso Técnico de Contabilidade na Escolinha do Carmelo. Eram inseparáveis. Amigos desde a infância, e mexeu com um, mexeu com todos. Após a conclusão do curso técnico, alguns montaram o seu próprio escritório e outros foram trabalhar, assumindo a área contábil de empresas na cidade. Trabalhavam duro, de 2ª a 6ª, mas aos sábados e domingos, os cinco amigos estavam sempre juntos, de dia nas pescarias e banhos na cachoeira dos Chaves (sempre regrados a muita cerveja gelada) ou à noite nas horas dançantes e bailes do Clube União Operária, acompanhados das suas namoradas. Chamavam a atenção pela alegria e a forte amizade que existia entre eles. Era de dar inveja ver um grupo de rapazes e moças tão entrosados e, principalmente, esbanjando alegria. O tempo foi passando e vira e mexe um deles estava casando, e entre os padrinhos, sempre estavam os quatro inseparáveis companheiros de infância.
- “Ê turma boa!” – Exclamava com frequência o Zé Odorico, enérgico Presidente do Clube União Operária, quando os cinco amigos, com as respectivas namoradas, adentravam pelo clube sempre com toda aquela alegria para mais uma noite de diversão.
- “Quem dera se todos os sócios fossem assim”- comentava com a Norma da Balbina, que fazia marcação cerrada na portaria para evitar a entrada de penetras, bêbados ou sócios com trajes inadequados para a ocasião.
- “Não dão trabalho algum, não criam problemas com os outros sócios e só pensam em se divertir”.
O tempo foi passando, vieram os filhos e às vezes as dificuldades para escolher os padrinhos entre os inseparáveis amigos. Muitas vezes era no sorteio, para evitar algum mal estar entre eles.
Com o passar dos anos os bailes de clube foram raleando, as esposas com menos tempo para sair em grupo em função dos afazeres de casa e a criação dos filhos, e eles passaram a se encontrar somente nas manhãs de sábado no Bar do Sandoval, lá na Lagoinha. Lá, eles colocavam a conversa em dia, relembravam os bons tempos da infância e juventude e, principalmente, bebiam muita cerveja e consumiam saborosas porções de tira-gosto que só o Bar do Sandoval sabe preparar.
Num belo dia, quatro componentes do grupo tomaram conhecimento de que a esposa do Gilbertinho estava pulando a cerca, costurando pra fora, isto é, botando uma gaiada de chifres no velho amigo.
- “Ocê tem certeza, Onofre?” – Questionava incrédulo o Juca da Filó.
- “Absoluta! E é sempre na parte da tarde, quando o coitado está atolado de serviço no escritório. Eu mesmo vi, por duas vezes, para ter certeza, quando o mesmo cidadão entrou sorrateiramente pela porta da frente, deixada aberta de propósito, e a dita cuja ainda colocou a cabecinha pra fora pra conferir o movimento da rua”.
- “Temos de contar hoje à tarde pra ele, antes que a notícia se espalhe e acabe desmoralizando o Gilbertinho de vez, e ocê tá encarregado de fazer a comunicação, pois foi ocê que trouxe esta desagradável notícia, num foi?!”- Exclamou o Juca da Filó.
- “Eu não! Conta ocê que é o mais velho da turma, uai!”
E no empurra, empurra, para escolher o componente do grupo para dar a difícil notícia ao velho amigo, resolveram partir para o sorteio. Seria na “purrinha”, quem perdesse seria o responsável para fazer a comunicação naquela mesma tarde. E entre pedidos de cinco palitos, sete, quatro, e lona... os ganhadores foram saindo aliviados, ficando por último o Gusmão, mais conhecido por todos por Gusmãozinho. Como combinado, caberia a ele a difícil missão de comunicar ao amigo de infância que a esposa estava tendo um caso com um motorista da Viação Padre Eustáquio.

- “Que azar, heim! Logo o Gusmãozinho, que é o mais tímido da turma!” – Exclamavam aliviados e em grupo os três amigos restantes, enquanto tomavam uma cervejinha e via o baixinho do Gusmãozinho se distanciar cabisbaixo rumo ao seu escritório para se preparar para dar logo mais a difícil notícia para o amigo chifrudo.
Sozinho no escritório, o Gusmãozinho, quebrava a cabeça para achar uma solução para a sua difícil missão.
- “O quê que eu vou falar meu Deus do Céu! E pensa daqui, pensa dali, rabisca um bilhete, escreve uma carta e nada. Com várias opções listadas em uma folha de papel, ligou para o amigo chifrudo e alegando urgência, informou que gostaria de encontrá-lo por volta das três horas da tarde, naquele dia, em frente à banca de revistas do Turruca. No horário marcado, ao se aproximar da banca de revista, já avistou o amigo Gilbertinho que o aguardava com um sorriso escancarado que de supetão foi lhe perguntando:
- “Pra que esta urgência Gusmãozinho, tá precisando de dinheiro?”
Frente a frente com o velho amigo, tudo que havia preparado no seu escritório desapareceu e um branco total tomou conta dos seus pensamentos.
- “Ocê tá passando bem, amigo? Tô te achando tão pálido! Ocê tá doente ou ...”
Trêmulo e sem o que dizer, apesar de ter de dizer, conforme combinado com os demais amigos, o Gusmãozinho, para surpresa do Gilbertinho, soltou de supetão:
- “Ô Gilbertinho! Ocê gosta de sexo a treis?”
Intrigado com aquela pergunta esquisita e tão fora de propósito, para aquele horário, o Gilbertinho, meio sem jeito, respondeu ao velho amigo:
- “Nunca experimentei não, mas é uma coisa que algum dia eu gostaria muito de fazer! Porque ocê tá me perguntando isso?”- Questionou com uma expressão preocupada.
Sorrateiramente, e sem responder, o Gusmãozinho caminhou cabisbaixo em direção a loja do Adolfo Mendes e após atravessar a rua gritou para o amigo postado em frente à banca do Turruca, com as duas mãos na cintura e uma cara que indicava que não estava entendendo nada:
-“Então corre lá na sua casa que só está faltando ocê, viu?!”.......

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