Itaúna, 18 de agosto de 2017

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10 de setembro de 2016 às 09h00 - Atualizado: 29 de setembro de 2016 às 15h20

Mério, obrigado meu chapa

Não sei explicar direito, ele tinha um carinho diferente comigo, fazia-me sentir à vontade no meio da turma toda, como se houvesse já um papel designado para eu fazer no filme de todos os dias; era (como eu), doido com a língua inglesa, ele cantava o Frank Sinatra noite e dia, com um vozeirão bem no fundo da goela, à maneira que os negros cantam seus “spirituals” e seus “souls”, lá no tedioso sul norte-americano; ele exigia que um bom lugar na furreca sem freio coubesse à minha figurinha, guiava aquela meleca pela cidade toda, sem carteira, sem lenço e sem documento drumondiano; punha-me apelidos adocicados, tartamudeava palavras em árabe, como se quisesse dizer que era um dos meus; gracejava, sem qualquer ponta de malícia, das silabadas que minha mãe pronunciava no seu linguajar abstruso; inventava piadas a meu respeito, como a que conto já: dia 7 de setembro, o Colégio Santana desfilando pela Silva Jardim, minha mãe e meu pai à janela enfeitada com guirlandas e azáleas, a turma marchando, peito pra frente, barriga pra trás, minha mãe explode de alegria no ouvido de meu pai – “saba’a, que gracinha, nosso anisinho único de basso certo”; aceito por ele em caráter definitivo, nunca precisei mostrar meu arsenal de ciência profana pra fazer parte daquela comunidade de rapazes que jogava bola no quintal do Dr. Coutinho; trocadilhista herdeiro de vezo paterno, não perdia ocasião de tracejar uma frase de paródia, de alegoria, de metáfora de carteiro e de poeta neruda; bom, leal, era aplicadíssimo no estudo, não poupava suor para aprender uma lição, sabia o que queria e não brincava em serviço; foi paixão de muita moça bonita e carinhosa, das que fazem o homem gemer sem sentir dor; formou-se na arte dentária, botou consultório na terrinha, graceja com a morte, dizendo que “nossa classe está sendo chamada”, quando Deus leva um Acir Porto, um Marco Helênio Pereira, um Dalmo Coutinho, um Juarez Coutinho, mas tanto ele quanto eu ainda não fomos porque sempre deixamos de responder à chamada.
Esse bom amigo, de quem sempre recordo um passado de bondade, de carinho, que me aceitou para sempre sem que eu tivesse de sacar da pistola para mostrar que os brutos também amam, esse cara é o Mério Alves de Sousa, sem tir-te nem guar-te.(até aqui é republicação da Itaunesca n. 6)
À beira- túmulo de Guaracy Nogueira e Heleno Coutinho, proferi fala de homenagem e despedida. Mério estava presente e, assim que nos abraçamos, ele disse: “No seu, eu virei também”. Mas sua memória falhou, e ele respondeu presente.
Sei-o numa boa morada do Pai.
Amém!

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