Itaúna, 21 de maio de 2018

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21 de abril de 2018 às 07h00 - Atualizado: 12 de maio de 2018 às 10h00

MARILYN E JFK

François Forestier

Nunca fui o fã mais ardoroso, quando o assunto é a ler biografias. Para ser bem sincero, li esta. A do jornalista François Forestier, primeiro, porque não foi escrita por um americano, o que certamente me livraria do ufanismo próprio de quem é da terra, segundo, porque a biografia estava voltada para o escandaloso envolvimento do presidente John Fitzgerald Kennedy e a sex appeal Marilyn Monroe, e em terceiro lugar, por que a narrativa tem um tom de romance “noir”, com uma puxada irônica e inescrupulosa, capaz de dar ao leitor curioso, as nuances da vida íntima dos protagonistas. Para não ficar só nas minhas palavras, vai aqui o que diz o autor, em tom confessional, no final de seu prólogo (que vale a pena ser lido na íntegra): “para iluminar um pouco tanta escuridão, foi preciso uma sólida documentação, um editor paciente e um defeito crucial. Uma má índole. Eu tenho. F. F.”.
O meu interesse é o de qualquer um; saber o que fez com que dois cometas de mesma magnitude viessem a entrar em rota de colisão, sabendo de antemão que o final seria fulminante, senão trágico. Vamos lá: Em plena guerra fria um político de fama mundial tinha o dever de ser cauteloso, mas Kennedy, John, não o era. Tinha uma aparência hollywoodiana, não parecia mesmo um presidente, pois estava mais para ator de cinema e tinha um eleitorado feminino fiel, ingredientes explosivos para um homem incontido.
Ribombava nos anos sessenta um cinema com musas sensuais, o ideal helenístico de verdadeira adoração pela imagem e culto ao corpo, bem representado por atrizes voluptuosas como Marilyn Monroe, símbolo sexual, presente em nove de cada dez cardápios masculinos da época. Junte-se a isso tudo, representantes belos e massificadores, e teremos o êxtase da sociedade, que adora o supérfluo afastando-se cada vez mais do essencial, o equilíbrio.
A biografia vai nos presentear com os bastidores da política americana tão corrupta ou mais que a nossa, e vai também nos premiar não com uma biografia, mas com duas, mesclando-as até se tornarem-se única. O autor é habilidoso, primeiro dá-nos os antecedentes e os espólios de John Kennedy herdados de seu pai, um irlandês, católico de conveniência, nominal, que mantinha casos extraconjugais, sem poupar a esposa, chegando ao absurdo de apresentá-la a uma de suas amantes Glória Swanson, atriz de cinema. Joseph Kennedy, o pai, tinha envolvimentos com o tráfico de bebidas e com a máfia, que não se afastará de John, sempre pressionado pelo patrocínio mafioso de sua campanha.
É tempo também de J. Edgar Hoover, tempo do macarthismo, há um clima de desconfiança e com tudo isso, escutas da CIA e do FBI, bem como da KGB, deveras tempos perigosos para um caso tórrido como foi o de John Kennedy e Marilyn Monroe. A aproximação de John Kennedy de Marilyn Monroe foi feita por seu cafetão de plantão, o cunhado Peter Lawford, ator de cinema casado com Patrícia Kennedy, que já intermediara outros encontros de John com atrizes de Hollywood e agora é a hora e a vez de Marilyn, pois por ela se interessara ele quando foram a uma mesma festa, só que foi impedido de se aproximar, pois estava acompanhado por Jackie. Próximos ao presidente Kennedy estavam também Frank Sinatra, Sami Davis Júnior dentre outros que tinham tanto relações com o cinema, quanto com a máfia.
Toda aquela admiração que temos por aqueles anos e pela política americana, bem como, seus valores vão se desmoronando à medida que o jornalista François Forestier dilacera as máscaras do casal, tanto quanto das personalidades, que com eles se envolvem.
A cama de Marilyn era frequentada por outro Kennedy, Robert, que sendo secretário no período em que John se afastou dela, se conformara com a possibilidade de não ser a primeira dama, mas a futura mulher do Secretário de Estado. A relação começou a esquentar à medida que as informações gravadas ou não, passaram a veicular nos tabloides e jornais fomentando as especulações em torno do casal, vistos nas mesmas festas ou em encontros furtivos.
De tempos em tempos John tinha recaídas visitando a alcova da decadente Marilyn, cada vez mais desesperada pela manutenção de sua posição social. O ano de 1962 foi culminante porque ela passou a fazer ameaças de ir a público e como o caldeirão aumentava a pressão, o presidente enviava o secretário para tentar dissuadí-la de tal intento, mas Robert é diferente de John, é violento, passou a ameaçar, até que no dia 04 de agosto de 1962, Marilyn foi encontrada morta, descabelada, à beira da piscina, depois de uma overdose de remédios.
Durante toda à tarde, foram vistos muitos visitantes na casa de Marilyn, mas o que chamou mais a atenção foi a visita de Robert por volta das 14h00. Segundo a biografia houve uma limpeza minuciosa do local para parecer que se tratava de suicídio no que discorda o autor, pois está mais para queima de arquivo promovida pelo irmão. Melhor sorte não teve John Kennedy que em 22 de novembro de 1963, se viu alvejado pelo projétil de uma Winchester Mannlicher-Carcano, calibre 6,5, que penetrou seu crânio, abrindo uma cratera de 13 centímetros. Coincidências à parte, se foi criminoso ou não a morte da musa Marilyn, se os Kennedys estavam ou não envolvidos, o fato é que o encontro estrondoso dos cometas ressoa pela eternidade a fora.
Os comentários aqui não fazem de mim o juiz deles, porque comento a obra de François Forestier e aprendi separar os fatos das personalidades, os homens de suas fraquezas, porque o que somos é este misto de forças e debilidades, portanto, não foco em nenhuma delas, mas aprendo com ambas. Até logo, antes vos suplico, leiam.

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