Itaúna, 17 de dezembro de 2018

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09 de dezembro de 2017 às 07h00 - Atualizado: 06 de janeiro de 2018 às 10h21

JUCA DO SEVERINO

Era assim que ele era conhecido por todos na pacata Itaúna do final dos anos cinquenta. Na época, já era um rapaz pacato de cabelos pretos, corpo atlético, de fala mansa e muito calmo, namorava há alguns meses a Das Graças, morena fogosa com os seus 1,64 de altura, que viera ainda criança, junto com os pais e oito irmãos, de Vitória da Conquista, na Bahia, e se instalaram de mala e cuia no bairro de Santanense, próximo ao cemitério local. Com 16 anos incompletos de pura formosura, saia curta sempre com as grossas e roliças pernas de fora e de sorriso fácil, a Das Graças cruzou pela primeira vez com o Juca no pátio da Escola Normal. Foi amor à primeira vista. Com seu topete “a lá” Elvis Presley, lambuzado de brilhantina, o Juca era o maior galã da escola e a Das Graças se apaixonara perdidamente por ele.
Namorando firme e desfilando de mãos dadas pelos principais locais da cidade, o casalzinho era motivo de comentários geral.
- “O Juca não vai aguentar o fogo da Das Graças” – falava um!
- “Ele é muito plasta e acomodado para satisfazer uma baiana tão fogosa” – comentava outro!
- “Este casamento não vai dar certo, pois são de gênios totalmente opostos! Ele é um banana e ela é fogo só!”
Realmente, este era o grande problema do galã lá do bairro dos Garcias. Com seus 1,78 de altura, moreno claro, topete saliente, ele era de uma beleza de chamar a atenção, mas em compensação, era de uma plasteza de dar dó. Vivia sempre sonolento, se encostando pelos cantos e quando abria a boca estava sempre atrasado nas conversas. Mas a Das Graças, tomada por uma paixão desvairada, não conseguia enxergar ou ouvir o que as pessoas ou os amigos mais próximos queriam lhe dizer. No fundo, no fundo, ela só conseguia ver aquele rostinho angelical, aquele sorriso infantil e aquela boquinha rosada e carnuda que não se cansava de parar de beijar. Os anos foram passando e de namoro firme à noivado foi um pulo só. Em pouco tempo estavam casados e a Das Graças era só felicidade.
Formado em Contabilidade pela Escolinha do Carmelo, o Juca do Severino levava aquela vidinha de classe média e se acomodara como contador de uma pequena indústria local. Hoje, com seus 57 anos, cabelos grisalhos e já meio raleados, com a camisa meio estufada na linha da cintura em função da saliente barriguinha, o Juca contradizia tudo que haviam previsto para o seu casamento e ainda despertava a mesma paixão da fogosa baiana, apesar do modo já meio desleixado de vestir e no porte físico. Sem identidade própria, poucos sabiam o seu nome completo e a sombra da forte figura paterna ainda impunha o seu sobrenome e, tanto no serviço como entre os amigos, era chamado de Juca do Severino, numa referência ao seu pai. Nunca se esforçara, apesar dos apelos da Das Graças, para se livrar daquele estigmado nome do pai, que o acompanhava desde a infância e se impusera como um sobrenome forte, justificando ainda mais a sua personalidade fraca e acomodada.
À noite, a sós com a esposa, o pobre contador se via no maior aperto para satisfazer a insaciável Das Graças que, por ela, batia ponto todos os dias. De uma vez por semana passou para quinze em quinze dias, mês a mês e só não ficou mais distante com as suas obrigações matrimoniais, em função do atrevimento da Das Graças que fazia de tudo para arrancar beijos, abraços e nheco, nheco... do acomodado Juquinha.
Num belo dia, um carro de som e centenas de cartazes espalhados por toda a cidade anunciava um grande rodeio, acompanhado de um leilão de gado de raça - “Vai ser no dia 21 de setembro a partir das 20h00 lá no Parque de Exposições Pedro Calambau” - esgoelava o locutor pelo alto falante do carro de som pelas estreitas ruas de Itaúna - “Vai ter Pião de Boaideiro e leilão de gado leiteiro” - esclarecia o carro de som rua a fora. Para contrariedade do Juquinha, a Das Graças estava no maior entusiasmo com o evento que se aproximava.
- “Logo no sábado!” - pensou desanimado o Juca do Severino! Dia que gostava de ficar plantado em frente à TV, de pijama e meia soquete, assistindo toda a programação e, principalmente, se deliciando com uma cervejinha gelada e os deliciosos petiscos que só a Das Graças sabia fazer. Mas a pressão da esposa foi mais forte e, no dia e na hora marcada, o velho fusquinha verde limão arrancou rumo ao parque de exposição. Já no local do rodeio e acomodado na arquibancada armada em volta da arena, o casal, rodeado de amigos e velhos conhecidos, assistia às estripulias dos vaqueiros em suas montarias, quando o locutor anunciou o início do leilão. Acomodado no alto da arquibancada e com uma visão privilegiada da arena, o casal a tudo assistia sem maiores comentários. Mas foi só o locutor começar o leilão dos bois reprodutores que a Das Graças começou a se inquietar.
- “Senhoras e senhores” - anunciava o leiloeiro oficial para a arquibancada apinhada de gente. - “Vamos leiloar agora um grande reprodutor que nos últimos doze meses fez 150 coberturas, gerando 150 bezerros da raça Girolanda”.
De olhos arregalados a fogosa baiana cutucou a saliente barriguinha do marido: “tá vendo seu plasta! Duas vezes por semana e é só um boizinho. Lá em casa tem muito tempo que isto não ocorre, né?” – confidenciou no pé do ouvido do marido, que com as pernas cruzadas e a mão apoiada no queixo, nem se mexeu.
- “Agora vamos leiloar um grande reprodutor que fez 250 coberturas nos últimos doze meses e gerou 250 bezerros do mais alto pedigree” – tornou a exclamar o entusiasmado locutor do centro da arena.
- “Olha lá seu plasta!” – cutucou novamente a Das Graças. - “Um boizinho babão daquele consegue fazer três vezes na semana e lá em casa, heim, heim...” – exclamou com um olhar de desdém e o Juquinha quietinho, quietinho.
- “E agora senhores, o maior reprodutor da região com 365 coberturas nos últimos 12 meses” -, gritou empolgado o leiloeiro, careca e de cara avermelhada. Aquilo foi o máximo para a fogosa Das Graças. De pouco traquejo na área de reprodução animal a afirmação de que aquele boizão gordo, parado, babando no meio da arena conseguia aquela proeza por dia enquanto o seu marido mal, mal, comparecia uma vez por mês, foi à gota d’água.
- “Tá ouvindo, Sr. Juca Amarantes da Silva”- falou com a voz alta e alterada, e os olhos arregalados de surpresa, a Das Graças. - “Aquela plasta babando lá embaixo consegue fazer em um dia o que você leva um mês para fazer!”. E uma gargalhada geral explodiu meio a arquibancada quando o Juca do Severino, na maior calma e sem alterar o tom da voz pastosa, interpelou pela primeira vez a irada esposa:
- “Vai lá e pergunta pra ele se é sempre com a mesma vaca...”.

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