Itaúna, 17 de dezembro de 2018

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28 de outubro de 2017 às 07h00 - Atualizado: 18 de novembro de 2017 às 10h00

JOVE SOARES... Meu avô

Filho de Firmino Francisco Soares, de Onça de Pitangui, e de Fabiana Nogueira Duarte, filha caçula de Manoel Ribeiro de Camargos, da fazenda da Vargem de Olaria, em 1868, nasceu Jove Soares Nogueira, na fazenda das Três Barras, quando Sant’Anna do Rio São João Acima era ainda distrito da cidade de Pitangui.
Desde adolescente, no dia-a-dia da lida dura com os afazeres da fazenda do pai, desenvolveu uma grande habilidade para conhecer e lidar com o gado de corte. Cresceu acompanhando o pai na compra, cria e venda de grandes boiadas, e em pouco tempo, transformou-se em um grande boiadeiro. Aos 26 anos casou-se com a sua prima Augusta Gonçalves Nogueira, na época com 16 anos, filha primogênita de Josias Nogueira Machado.
Com a responsabilidade de uma família que estava crescendo, teve 11 filhos, embrenhou-se pelos sertões de Goiás por trilhas, veredas e estradas quase intransitáveis em busca de gado para comprar, em uma época em que não existia avião, automóvel ou rádio. As suas jornadas pelos sertões de Goiás levavam de três a quatro meses no lombo de mulas, cavalos e jumentos, onde com grande faro e habilidade para negociar, comprava de 1.500 a 2.000 cabeças de novilhos e as trazia através de trilhas e estradas precárias, atravessando rios caudalosos, pois não existiam pontes naquela desolada e remota região do Brasil, na companhia de dezenas de peões e dos inseparáveis companheiros: preto Paulino, crioulo Ortêncio e do primo Versol. Como não sabia nadar, com seus um metro e setenta e cinco de altura, acompanhava a tropa agarrado no rabo de sua mula malhada para atravessar os rios mais profundos. Durante o trajeto perdia de vinte a trinta cabeças de gado atacadas por animais selvagens, principalmente onças. Em casa só ficava o tempo necessário à engorda do gado nas suas fazendas da Bagagem, Três Barras e Pedro Gomes e a sua venda para comerciantes da região de Belo Horizonte, nova capital de Minas, com grande crescimento populacional. Apesar do pouco estudo, nunca se deixou apanhar por espertalhões, pois sempre estava a par de tudo que ia pelo mundo através da leitura de jornais e revistas da época.
Visto e até mesmo criticado como um homem pão duro, mão de vaca, na verdade dava ao dinheiro ganho com grande sacrifício, um extraordinário valor. Não gastava naquilo que não era necessário e imprescindível, e com isto acumulou uma grande fortuna. Em 1911, convidado pelos amigos Dr. Augusto Gonçalves de Souza, Cel. João de Cerqueira Lima, Dr. Cristiano França Teixeira Guimarães e Dr. Tomás de Andrade, ajudou a fundar a Cia. Industrial Itaunense e em 1923 e o Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais. Não se envolveu muito com política. Por insistência dos amigos foi vereador na primeira Câmara Municipal em 1902 e em 1916 e foi Conselheiro Municipal entre 1932 e 1936. Enviuvou-se em 1935 e faleceu em 17 de novembro de 1953 aos 85 anos.
Meu pai, Mauro Soares Nogueira, o Nô do Jove, contava muitas histórias sobre o meu avô, e uma delas sempre me ficou na memória, a que ocorreu nas vésperas de seu aniversário. Meu avô, quando em casa, após as longas e cansativas jornadas pelos sertões de Goiás fazia questão da presença de todos os filhos na mesa na hora das refeições. Era muito exigente quanto a isto. Nas vésperas de seu aniversário, os filhos, em sua maioria, adolescentes, ficaram sabendo que o pai estava namorando uma bela capa gaúcha de lã de carneiro, exposta na vitrine da loja do Leão José, pai do saudoso professor Willian Leão. Vira e mexe, era visto parado em frente à vitrine da loja com as duas mãos para trás olhando a bela capa, muito usada nas longas jornadas pelos vaqueiros, pois cobria completamente o cavaleiro e grande parte do dorso do animal, protegendo-o contra a chuva e o frio, mas o preço era proibitivo para o meu avô: um Conto de Reis, um dinheirão na época. Apesar de dispor com tranquilidade daquela quantia, achava um absurdo gastar tal quantia com a bela indumentária exposta na vitrine. Reunidos, os filhos resolveram fazer uma vaquinha e presentear o pai com a tão desejada capa de lã de carneiro, no dia de seu aniversário. Sabiam que a primeira pergunta do pai ao receber o embrulho, seria saber o valor do presente e combinaram informá-lo de um valor menor do que o preço pago. No almoço, com todos os filhos presentes, mais a minha avó Augusta, a capa foi entregue. Após desfazer o volumoso embrulho veio o tão esperado questionamento: “quanto custou?”.
Nomeado pelos irmãos, o Tio Osmário foi o responsável para informar que o presente havia custado oitocentos e cinquenta mil reis, isto é, cento e cinquenta mil reis abaixo do valor realmente pago de um conto de reis. “Hum...” - resmungou o meu avô como sinal de aprovação pelo valor gasto pelos filhos na compra da bela indumentária. Na mesma noite, após o jantar, com toda a família reunida em volta da espaçosa mesa o meu avô exclamou: - “Vocês não sabem ganhar dinheiro! Vocês precisam aprender a ganhar dinheiro!”.
E para surpresa dos filhos reunidos em volta da mesa, prosseguiu: - “Sabe aquela capa gaúcha que vocês me deram hoje na hora do almoço e que custou oitocentos e cinquenta mil reis? Pois bem, hoje à tarde eu a vendi por novecentos mil reis e lucrei cinquenta mil reis! Vocês precisam aprender a ganhar dinheiro!”.
Este era o meu avô, que até virou nome de uma das principais avenidas de Itaúna, a Jove Soares...

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