Itaúna, 21 de setembro de 2018

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24 de fevereiro de 2018 às 07h00 - Atualizado: 24 de março de 2018 às 10h29

GUSTAVINHO

Filho único, ele perdeu o pai aos 12 anos e desde então foi criado com o maior carinho pela zelosa mãe, por quem além de um grande amor, tinha uma grande admiração e reconhecimento pelo esforço que fazia, apesar das dificuldades financeiras, para lhe proporcionar uma educação e formação da melhor qualidade. Cursando o segundo grau no Colégio Sant’Ana, ele era um dos melhores alunos da classe e fazia planos para cursar Economia na Universidade de Itaúna.

- “Quero ser Economista!” – Afirmava com frequência para os amigos e colegas de sala.

- “Arranjar um bom emprego e dar o maior conforto para a minha mãe.”.

Todos que conviviam com ele sabiam muito bem das suas intenções, isto é, retribuir em dobro tudo que a zelosa mãe estava fazendo por ele. Já com 18 anos e cursando o último ano do segundo grau e ao mesmo tempo servindo o Tiro de Guerra e fazendo cursinho pré-vestibular à noite, a sua vida era uma correria só. Não tinha tempo para nada, mas nas poucas horas de folga estava sempre ao lado da mãe que tinha sérios problemas cardíacos. Vira e mexe era levada às pressas ao hospital Manoel Gonçalves com palpitações ou fortes dores no peito. Esta era a sua grande preocupação. Numa sexta-feira pela manhã, enquanto servia no Tiro de Guerra, a mãe passou mal e levada às pressas ao hospital, não resistiu ao infarto fulminante, e faleceu. Ainda no hospital a família, formada por tios, tias e sobrinhos, discutiam nervosamente de como dar a notícia para o Gustavinho, como ele era carinhosamente chamado por todos.

- “Fala você!” – Exclamava nervosamente uma tia.

- “Não. Fala você que é mais próxima dele, sá!”

E no empurra, empurra, resolveram formar um pequeno grupo e ir direto a sede do Tiro de Guerra onde o Gustavinho estava se exercitando naquele momento. Já no Tiro de Guerra, colocaram o problema e as preocupações para o Sargento, enquanto os atiradores, mais de cento e cinquenta, faziam uma série de exercícios, marchando em ordem unida de um lado para o outro e entre eles o Gustavinho, que garbosamente empunhava um velho mosquetão nos ombros no comando de um pelotão, como Cabo do Dia.

- “Então é isto Sargento!” – Exclamava a aflita tia.

- “Vai ser um choque para o menino e nós não sabemos como dar esta triste notícia para ele”. - “Quem sabe o senhor que é mais vivido e experiente...” – Sugeriu quase quem em coro o pequeno grupo de familiares.

De prontidão, o truculento Sargento aceitou a difícil missão e solicitou que todos aguardassem na espaçosa sala, enquanto se dirigia para o pátio onde a turma marchava de um lado para o outro. Com um forte brado de: “pelotão sentido!” – Ele estancou aquela centena de jovens atiradores, que ficaram perfilados em duas colunas e em profundo silêncio. De cabeça baixa. Ora coçando o volumoso queixo, ora colocando as duas mãos para trás, o experiente Sargento caminhava pensativo entre as duas colunas formadas por centenas de jovens atiradores do glorioso Tiro de Guerra de Itaúna, perfilados à sua frente.

- “Foi uma ótima ideia passarmos esta missão para o Sargento, num foi Resicler?”- Sussurrou a tia mais velha do Gustavinho.

- “Homem experiente, preparado até para lutar nas guerras, ele vai saber falar com jeito para o nosso menino e amenizar o seu sofrimento, né?” – Concluiu a tia que a tudo observava da espaçosa janela da sala do Sargento.

Após alguns minutos de uma caminhada silenciosa entre os dois pelotões, o Sargento exclamou de supetão:

- “A mãe é a pessoa mais importante na formação do caráter de uma pessoa. É ela que, com dedicação e carinho, aponta os bons caminhos, evitando que os filhos avancem pelo caminho do mal, do lado errado da delinquência”.

-“Ah!” – Exclamou aliviada a Resicler – “O Sargento está preparando o terreno para depois trazer o Gustavinho até nós para comunicar a triste notícia sobre o falecimento de sua querida mãe. Foi uma escolha correta esta que fizemos. Ah! Se foi!”.

No pátio o Sargento continuava a sua preleção sobre a mãe e sua importância na boa formação dos filhos. Num dado momento parou bem ao lado do Gustavinho, quando os surpresos familiares amontoados na janela, ouviram a sua estridente voz de comando:

- “Pelotão, ao meu comando: quem ainda tem a mãe viva dê um passo à frente”! Instantaneamente, enquanto a grande maioria dos jovens atiradores levantava a perna direita para atender a ordem dada pelo Sargento, ele, com o grosso braço estendido sobre o peito do assustado Gustavinho, exclamou bem alto: “ocê fica”!.............................

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