Itaúna, 23 de outubro de 2017

Cadastro

22 de julho de 2017 às 07h00 - Atualizado: 12 de agosto de 2017 às 08h43

EDGARZINHO, o filho do vento

...bola com Medéia, domina, dá de trivela para Neto. Neto avança, passa por Cabeção, lança para Argeu... Argeu domina, passa por um, passa por dois, entra na área adversária, vai chutar: pqp, na trave! O que é isto Santiago, exclamou o seu repórter de campo. É a emoção Marquinhos, é a emoção... Concluiu o grande locutor esportivo. Pela sua ZYZ4, Rádio Clube de Itaúna, são precisamente 17 horas e 15 minutos e o relógio marca: são decorridos 20 minutos do segundo tempo e o placar indica zero para o Esporte Clube de Itaúna e zero para o Paraense.
- “É com você Marquinhos Lacel” - falou o radialista Sérgio Santiago para o seu comentarista de campo.
- “Jogada perigosíssima Santiago”. Por pouco, mas muito pouco o Esporte não abre o placar com esta bola no travessão e seguramente a torcida do Esporte ia explodir, pois este tipo de jogada o Argeu não perdoa mesmo, e seria gol, gol, gol, gol, gol, gol...
Edgarzinho, Edgarzinho, Edgarzinho, começou a gritar a enorme torcida presente no Campo do Esporte, solicitando a entrada de um de seus ídolos, mas que até aquele momento estava no banco de reservas.
- “Estão solicitando a entrada do ponta Edgarzinho. Marcos Lacel, qual é a sua opinião?” - Tornou a falar o principal radialista esportivo da região, o conceituado advogado e desportista, Sérgio Santiago.
- “Acho que é uma boa pedida Santiago, pois o filho do vento, como é chamado pela torcida, é muito veloz e está em boa forma física.” É perigosíssimo com a bola jogada a sua frente e se a defesa do Paraense bobear, bimba, bimba, bimba... Bola na rede, Santiago. Naquela época o Esporte Clube de Itaúna disputava a segunda divisão do Campeonato Mineiro e o time estava bem colocado e com possibilidade de ganhar o campeonato e passar no ano seguinte para a divisão principal. O Paraense, da cidade de Pará de Minas, era um adversário tradicional e em função da proximidade das duas cidades a rivalidade era muito grande. Além de ótimos jogadores como Argeu, Neto, Rubinho, Igaratinga, Paulo Monteiro, Diamante Negro e Medéia, tinha um que pela sua irreverência e jeito moleque de jogar, se tornara um ídolo da fanática torcida do Esporte: o Edgarzinho. Baixinho, atarracado e de ombros largos e de sorriso fácil, era um ponta veloz e mesmo entrando no segundo tempo ou mesmo no final dos jogos, foi decisivo em muitas partidas do glorioso Esporte Clube de Itaúna. Por isso, sempre que o jogo estava difícil e se aproximando do seu final, a torcida em peso, gritava o seu nome. Naquele jogo os gritos da torcida, o deixava ainda mais eufórico, pois pelos cochichos no vestiário, no intervalo do primeiro para o segundo tempo, ficara sabendo da presença de um olheiro do Botafogo, isto mesmo, um diretor do Botafogo Futebol Clube, do Rio de Janeiro, onde atuavam vários craques da seleção Bicampeã Mundial como Didi, Garrincha, Zagalo, Nilton Santos, Manga e outros mais, estavam na arquibancada à procura de jovens talentos.
- “É, tão dizendo que tem um olheiro do Botafogo na arquibancada à procura de novos craques” – exclamou o lateral Igaratinga para o Medéia.
- “Acho que ele veio só para olhar o Neto jogar!”
- “Sei não”- exclamou sem muito entusiasmo o atacante Rubinho – “Vi falar que ele tá de óio é no lateral Quati do Paraense”.
No canto do vestiário o Edgarzinho só escutava e no fundo, no fundo, torcia para que o jogo ficasse em 0x0 até a metade do segundo tempo, pois nesta hora sabia que a fanática torcida do Esporte, gritaria pelo seu nome e com isto despertaria a atenção do olheiro do Botafogo. Não deu outra. Quando o jogo terminou os torcedores invadiram o campo e a cena era observada do alto da rústica arquibancada por um senhor de cabelos grisalhos que, com um leve sorriso, acompanhava a fanática torcida do Esporte, carregar nos ombros um pretinho atarracado, autor dos dois gols, na vitória do time local, aos gritos de Edgarzinho... Edgarzinho... Edgarzinho...
No Bar do Automóvel Clube, ainda com a camisa do Esporte e cercado por uma multidão de curiosos, foi acertado um teste no clube carioca para a semana seguinte.
- “É uma glória para Itaúna” - exclamava eufórico o Argemiro. – “Não tem erro não, Edgarzinho!” – Com esse preparo físico e essa velocidade, em pouco tempo o Vicente Feola te convoca para a Seleção Canarinho. Pode tratar de vender o seu bar lá na zona boêmia, porque você vai ganhar um mundo de dinheiro no Botafogo”.
- “É! Eu vou, mas com o coração na mão, seu Argemiro. Gosto muito de Itaúna e de maneira nenhuma vou deixar de sair de passista na Unidos da Ponte, no carnaval”.
- “Vamos arranjar um especial com o Zé Coelho, gente” - exclamou o Cassiano Dornas - “Temos que levar uma torcida para incentivar o nosso craque no dia do treino”. Um dia antes do treino, bem cedo, ao som dos dobrados da banda de musica Nossa Senhora Aparecida, comandada pelo Ozéas e em meio a dezenas de faixas de incentivo, confeccionadas a toque de caixa, pelo Heli Jaó, dois ônibus da frota do Zé Coelho seguiram para o Rio de Janeiro levando além do Edgarzinho, setenta e nove fanáticos torcedores do Esporte Clube de Itaúna. No campo do Botafogo o treino estava quase terminando, a torcida itaunense impaciente na arquibancada e o Edgarzinho, como sempre no banco de reservas, sem ter ainda a oportunidade de entrar no treino. - “Vamos começar a gritar o nome dele, gente” - sugeriu o Dêgo. “Quem sabe assim eles dão uma oportunidade para o nosso craque.”
- “Vamos com calma, pessoal, que aqui não é Itaúna não, e ainda faltam 10 minutos para terminar o treino”. – Ponderou o Ari Carvalho de olho no relógio de pulso. Foi só o Ari acabar de falar que a torcida itaunense viu o treinador caminhar em direção ao banco de reservas e gritar: “ô você aí, escurinho, pode entrar na ponta!”
Foi o máximo para aquela pequena torcida amontoada junto ao alambrado. Agora a defesa do Botafogo ia sentir na pele os dribles do craque itaunense. Faltando pouco mais de 2 minutos para encerrar o treino, para desespero da torcida o Edgarzinho continuava isolado na ponta, sem receber nenhuma bola. Corria pra ponta, abria pro meio, corria pra lá, corria pra cá e bola que é bom, nada. Num dado momento numa disputa no meio de campo a bola espirrou e veio redondinha, redondinha, parar nos pés do craque itaunense.
- “É agora filho do vento, gritou eufórico o Sérgio Santiago”.
- “Vai diabo negro!” – Acaba com a defesa do Botafogo”. – Complementou o Paulo Magalhães. Com a bola dominada, o baixinho atarracado, deu uma quinada de corpo e partiu feito uma bala em direção a área do Botafogo, quando um lateral grandão se postou a sua frente. Naquele momento, em frações de segundos, mil coisas passaram pela sua cabeça: se eu driblar esse beque grandão e marcar o gol, pensou, eu volto como herói para Itaúna”. Na sua frente, a uma distância de uns dois metros, estava o lateral grandão com as duas mãos na cintura. Não pensou duas vezes, deu um leve toque na bola e num jogo de corpo fingiu entrar pela esquerda e o lateral botafoguense nem se mexeu. Tornou a dar um novo toque na bola e fingiu que ia entrar pela direita e lá estava o lateral grandão paradinho, paradinho olhando para ele.
“Já sei” - pensou a grande esperança destas terras de Santana de São João Acima. “- Vou passar com a bola e tudo pela esquerda deste lateral grandão, pois aposto que ele vai pensar que eu só vou fingir que vou jogar o corpo, e foi com tudo pra cima do lateral botafoguense”. Com um leve toque de bico de chuteira o lateral grandão tomou a bola do craque itaunense e de calcanhar lhe aplicou um chapéu. Antes que a bola caísse, matou-a no peito e com a elegância de um príncipe, saiu deslizando pelo gramado verdinho de General Severiano. Antes que a boquiaberta torcida itaunense se manifestasse, ouviu-se em um bom tom o comentário dos poucos torcedores botafoguense presentes no estádio: boa jogada Nilton Santos....

Colunas recentes de Sérgio Tarefa - Causus