Itaúna, 21 de abril de 2019

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13 de abril de 2019 às 07h00 - Atualizado: 20 de abril de 2019 às 08h58

Como sempre, o Hospital…

Desde que pisei pela primeira vez na redação da FOLHA, no início da década de 70, ouço e convivo com os problemas do Hospital Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, doado aos itaunenses pelo casal Manoel Gonçalves e Dona Cota. Naquela época, em matérias semanais, o jornalista Sebastião Nogueira Gomide, o Piu, criticava, cobrava e discorria sobre a administração da Casa de Caridade e sobre a situação financeira da instituição, que nunca foi boa, apesar dos milhões em ações das duas principais indústrias de Itaúna à época, Tecidos Santanense e Cia. Industrial Itaunense, deixadas pelo casal. Desde a sua fundação, no decorrer do século passado e nos quase 20 anos deste século, a situação não mudou. É verdade que melhorias e muitas conquistas foram alcançadas, até porque o município e as cidades do seu entorno têm no “Hospital do Manoelzinho” a única opção de atendimento à saúde. E é preciso levar em conta a relação de dependência que a comunidade itaunense tem com o Hospital. A dependência é tão expressiva que as dificuldades da instituição de saúde chegam a causar certo pânico. E isso faz com que os avanços, mesmo aos trancos e barrancos, sejam consequência das necessidades.
Como não poderia ser diferente, nas últimas semanas a pauta da comunidade é o Hospital. E essa pauta é extensa, pois, além das questões diretamente ligadas à saúde, como a situação do Centro de Hemodiálise, já resolvida, e a “eterna” situação desconfortável da questão financeira, desta vez tem o entrevero dos atrasos nos repasses do Pronto Socorro. Como todos sabemos, os recursos nunca são suficientes para o Hospital, que tem demanda muito alta. E, além dos problemas já citados, desde a sua fundação, os problemas administrativos e políticos têm sido motivos de discussões acirradas, disputas internas e de desentendimentos motivados por divergências de pensamento. E assim, desde a semana passada, as discussões estão em pauta no dia a dia da instituição, e desta vez começaram na reunião do Conselho Comunitário na quinta-feira, 04 de abril, em que o assunto hemodiálise e os atrasos nos repasses de recursos, com destaque para cobrir os serviços do Pronto Socorro, de responsabilidade do município, mas hoje gerido pelo Hospital, e motivo de constantes queixas da provedoria, foram a tônica. As discussões na reunião do Conselho foram ríspidas, com muitas acusações, queixas e discordâncias, e com assunto sendo retirado de pauta, caso das modificações de critérios nas internações, envolvendo o corpo clínico. O caso hemodiálise também tomou tempo e provocou longa discussão, a mais ríspida com manifestações de descontentamento evidenciadas. Mas a situação financeira, que é a mais séria, foi desta vez relegada a segundo plano, como nos discorreu e opinou um dos membros do Conselho, que, em nossa opinião, é pessoa centrada e de senso crítico apurado.
Diante desta situação, esta foi uma semana de posicionamentos. O jornal, por exemplo, recebeu da provedora do Hospital demonstrativo da dívida total da entidade e o saldo a receber da Prefeitura, relativo ao Pronto Socorro e a outros repasses dos governos federal e estadual. Aparentemente a situação financeira é tranquila, desde que não aconteçam atrasos nos recebimentos. Segundo a direção, devido aos atrasos dos repasses à instituição de saúde, os funcionários ainda não receberam os salários referentes ao mês de março. De um total de R$ 1.847.947, 49 a receber, hum milhão e 185 mil reais são de responsabilidade da prefeitura. As dívidas perfazem R$ 1.459.961,20. É visível a irritação da provedora ao falar no assunto, mas, por outro lado, são também compreensíveis as argumentações do poder público municipal, que não está recebendo os repasses constitucionais do governo estadual como deveria e não tem recursos para cumprir com as suas obrigações. E, em meio a essa situação, o que se observa é que há também um “jogo” para direcionar a culpa dos atropelos e tropeços. E isso não é saudável para a instituição. Essa é a nossa sensação como observadores, como profissionais e até mesmo como cidadãos.
E, em meio a esse emaranhado de opiniões, situações, acusações e justificativas, está a população, que depende totalmente dos serviços do Hospital. De todos os serviços, sem exceção. Desde o primeiro atendimento no PS até a internação e a cirurgia complexa. Então só há uma verdade: o Hospital não pode parar. E para que isso não aconteça, as movimentações de bastidores fomentam toda uma engrenagem e a imaginação tem que fluir, e dentro desta lógica algumas alternativas para amenizar a situação no Hospital surgem. Uma delas está sendo ventilada e pode resolver em parte na próxima semana a questão dos pagamentos emergentes, como a folha de pagamento dos funcionários. A sobra do duodécimo da Câmara, por exemplo, pode ser usada para arcar com parte do débito do Hospital. Conversações entre o prefeito e o presidente da Câmara estão sendo mantidas e, até que os repasses do governo do Estado sejam regularizados (que só Deus sabe quando), parte dos recursos do Poder Legislativo pode ser usada para socorrer o nosso Hospital. É uma saída sensata.
Não custa reafirmar aqui que em muitas oportunidades já cobramos uma atenção especial da cidade para com a instituição Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira. Uma atenção não só dos políticos de plantão, mas de toda a população que usufrui dos seus serviços. Mesmo que seja obrigação do Estado o atendimento integral à saúde, a população itaunense também pode contribuir para acabar com a penúria financeira constante do Hospital. Além da população, e com maior propriedade, os empresários bem sucedidos e privilegiados, em um ato nobre, poderiam resolver de uma vez por todas a situação, revertendo o caixa negativo. E os políticos, além dos esforços, poderiam oferecer maior dedicação ao Hospital, que é sempre um mote para a propaganda eleitoreira. “Consegui isso, atuei naquilo, resolvi isso...”. Essas são frases comuns nos releases dos nossos deputados e vereadores. Mas ficam as perguntas: e o Centro de Oncologia? Vai funcionar quando? E a UTI Neonatal que nunca chegou a funcionar? Se foi? Isso somente para lembrar duas questões. Há muitas outras promessas que não saíram, não saem e nem vão sair do papel. Então, é preciso esforço, dedicação e vontade, e incluímos aí a população toda. Ela também tem que participar. Culpar o prefeito, a provedoria ou mais um ou dois não vai tirar o “Hospital do Manoelzinho” do vermelho. E com todas as letras: de “chiliques” estão todos cheios.

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