Itaúna, 14 de dezembro de 2017

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01 de abril de 2017 às 07h00 - Atualizado: 06 de maio de 2017 às 07h27

Bonfim: das cinzas à luz

Capela do Bonfim, 16 de outubro de 2014. Capela do Bonfim, 26 de março de 2017. A primeira data refere-se ao grande sinistro: o incêndio. A segunda marca o novo tempo: sua reinauguração.
O rosáceo dos paramentos dos clérigos se tornou mais vivo com a intensidade do sol naquela manhã. Presentes o bispo da Diocese, Dom José Carlos de Souza Campos, o Pe. Breno Antônio dos Santos – responsável pela Paróquia Nossa Senhora de Fátima- circunscrição religiosa aonde se localiza a Capela do Bonfim; seu vigário auxiliar, Pe. Marcelo Geraldo de Oliveira; Pe. Everaldo Quirino Ferreira – da Paróquia Sant’ana- e o Pe. José Luiz de Freitas. Dentre as autoridades civis, o Prefeito Neider Moreira e a primeira dama, bem como diversos secretários municipais; representante do Ministério Público e a Imprensa local.
Os vibrantes dobrados da Banda de Música “Sagrado Coração de Jesus” deram o tom festivo à solenidade.
Após o rito cerimonial de praxe, as nominadas de autoridades e de pessoas gradas da Sociedade, com execução do Hino Nacional Brasileiro e a sentida ausência do Hino Municipal de Itaúna – visto se tratar de um resgate da História da cidade, o Sr. bispo ao final de sua fala fez ecoar pelo vale do São João o som do velho sino a conclamar os fiéis para a Santa Missa.
No trecho do Evangelho de São João (Jo 9,1.6-9.13-17.34-38) ouviu-se o mesmo a jogar com as palavras luz/ trevas, cegueira/visão, cego que vê, doutores com boas vistas e que não enxergam....Fez-se pensar e muito. Se na noite do dia 16 de outubro de 2014, a cegueira de alguns poucos levou a uma violência contra o Patrimônio de todos, naquela manhã de domingo, 26 de março, a luz era intensa novamente- não somente vinda do alto do céu, mas na percepção daqueles que ali estavam para fazer reviver a pequena capelinha do Senhor do Bonfim.
Na noite de outubro, quando do incêndio, as chamas do mesmo não conseguiram iluminar os corações, mas conseguiram tornar claro a cegueira de todos ao relegar o Bonfim ao abandono. O arder das chamas fez inflamar as consciências adormecidas... “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” ( Ef 5, 14) , alertou São Paulo aos itaunenses. Não se trata apenas e tão somente da capela de pedra, cal e madeiras....Mas do templo espiritual interno de cada um que reside nas barrancas de Sant’ana do rio São João Acima. É tempo de reconstruir-se. E segue Paulo Apóstolo em sua admoestação... “Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as” (Ef 5, 11).
E naquela manhã o “Senhor nos conduziu pelos prados e campinas verdejantes” (Sl 22) até o alto do Bonfim. Capela restaurada através de parcerias diversas; entre a Mitra Diocesana de Divinópolis, a Paróquia de Fátima, o Ministério Público, a Prefeitura Municipal e tantos outros agentes anônimos. Apesar de ainda não ter sua peça sacra principal que a caracterizava – o seu antigo altar-mor: o altar do SENHOR DO BONFIM- e carecer também de uma otimização da via de acesso, de segurança, de uma adequada arborização e sua ocupação sadia, através de eventos religiosos e civis...Mas... “Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” ( 1Sm 16, 7). As lentes das câmeras registraram o que se vê; o olhar de Deus sondou os corações dos homens e enxergou o real motivo de cada um ali estar naquela manhã.
Faltaram algumas lembranças que deveriam ter sido – por Justiça - assinaladas, como do Sr. Helênio Lara ( de saudosa memória), empresário da Rádio Santana FM – que foi o primeiro a buscar o Ministério Público para que se tomasse as providências para a reconstrução da capela; da própria RÁDIO SANTANA FM que durante os últimos 15 anos doou a energia elétrica para a Capela do Bonfim; bem como instalou diversas câmeras a vigiar o sítio histórico.
Apesar das diferenças políticas o ex-prefeito Osmando Pereira da Silva também deveria ter sido convidado para a reinauguração, afinal; além da assinatura do contrato de reconstrução, foi o responsável por grande parte do andamento da obra.
Enfim, resta agora aos itaunenses – com a Capela do Rosário restaurada, com a Matriz de Sant’ana restaurada ( leia-se e agradeça-se à Arquê Construtora) e com a Capela do Bonfim reconstruída, passar à restauração de nossa gente. A restauração da alma itaunense. Que se restaure a luz dos corações para que nos unamos na reconstrução de nossa própria cidade. Deixemos de lado as cegueiras das vaidades políticas pessoais que nada constroem; vamos abrir os olhos do espírito e caminhar para as águas repousantes da Justiça Social e do Bem Comum.
E assim, Felicidade e todo bem hão de seguir-nos por toda a nossa vida.

*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA Historiador/ Escritor/ 1º Secretário da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências” e “Olhares Múltiplos”/ Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria” Cidadão Honorário de Itaúna

Prof. Luiz Mascarenhas - Réquiem para o Padre Nilo

ITAÚNA amanheceu mais pobre em seu cenário humano na manhã cinzenta do sábado, dia 12 de março do corrente ano. Partia para a eternidade o nosso tão querido Pe. Nilo.
Deixo aqui, a minha pequena contribuição sobre a Vida deste homem, com quem convivi desde a minha infância. Lembro-me bem da calça adidas, com as três listras, a camisa de malha branca, os tênis e um fusquinha que não me lembro bem a cor.
Todos os alunos postos em fila na linha vermelha da quadra e em silêncio. Seis horas da manhã. O relógio da Matriz de Sant’ana ecoava por toda a Itaúna a sua primeira badalada. E ele começava sua aula de Educação Física: “o anjo do Senhor anunciou a Maria...”
Nilo Caetano Pinto nasceu no distrito de Antônio dos Santos, em Caeté, Minas Gerais, em 24 de março de 1930. Era o filho mais velho de Carlito Caetano Pinto e Antônia Luiza Dinis e teve mais seis irmãos. Órfão de pai aos 11 anos, começou a trabalhar para ajudar em casa, sem deixar de lado os estudos, que seguiu até graduar-se em Educação Física pela UFMG.
Chegou em nossas barrancas ( graças a uma indicação do Cel. José Lázaro Guimarães- cunhado do Dr. Guaracy), já casado com Florescena Diniz Guimarães Pinto e tiveram teve oito filhos, dos quais conheceu 12 netos e um bisneto.
O nosso então Prof. Nilo lecionou na Escola Normal, a Escola Estadual de Itaúna, por 34 anos, como professor e vice-diretor. No Colégio Santa’Ana ficou durante 26 anos.
Nilo sempre foi um homem de Fé. Sempre engajado nos movimentos da Igreja. Ajudava com sua Família na Igreja da Piedade e na comunidade Sagrada Família do Bairro Cerqueira Lima, pois residia naquela região.
Em 1982, dona Florescena, sua esposa, veio a falecer. E aos 52 anos, ainda criando os filhos, resolveu dizer sim ao chamado desse Deus. Assim sendo, encaminhou-lhe Dom Cristiano Penna para a Faculdade de Teologia, da PUC Minas, em Belo Horizonte. Foi ordenado padre por Dom José Belvino do Nascimento, aqui em Itaúna no ano de 1990, no Poliesportivo JK.
Muitos o chamavam de “o homem dos 7 sacramentos”. Para nós católicos, os sacramentos são sinais visíveis da graça de Deus. São veículos dessa graça. E a maioria dos homens parte deste mundo com 6 sacramentos; pois ou se tem o sacramento do matrimônio ou o da Ordem ( que confere o sacerdócio católico).
Pois bem. O nosso Pe. Nilo partiu daqui na plenitude da graça! Com todos os 7 sacramentos! O último foi-lhe ministrado no leito do hospital, a unção dos enfermos, que o preparou para ir de encontro a Deus.
Em meio a tantas crises; eis o exemplo de Padre Nilo para nós. Exemplo de pai, de padre, de fidelidade, à Deus, à sua Palavra sobretudo. Enquanto esposo, honrou plenamente seu casamento sendo-lhe fiel até a morte de sua esposa. Enquanto padre, honrou plenamente o seu sacerdócio, sendo-lhe eternamente fiel. Enquanto homem, honrou plenamente a espécie humana, sendo humano com os humanos!
Descanse em Paz meu Pe. Nilo. Recebe agora a coroa da Justiça, a qual o Senhor, Justo Juiz, lhe deu naquele dia!
Misture sua luz a das estrelas...cintile quando o dia clarear.
Réquiem aeternam dona eis Domine, et lux perpetua luceat eis.

*paroquiano de Sant’ana

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