Itaúna, 17 de julho de 2018

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24 de fevereiro de 2018 às 07h00 - Atualizado: 24 de março de 2018 às 10h29

Bilhete para o cemitério

Lawrence Block

O romance policial está bastante difundido, até porque as páginas policiais são uma constante em todo jornal que se prese, pequeno, grande, periódico ou não. “Não matarás” é talvez o mais violado mandamento do decálogo e mata-se por vários motivos: traição e não precisa ser por adultério, dinheiro é outro ingrediente que justifica o ato mórbido, vício seja ele qual for pode te conduzir ao homicídio, isto sem falar na demência e psicopatias tão em voga nos dias atuais. E sem dúvida a violência é a mola mestra da maioria dos temas do romance sob a análise. Principalmente se o romance for da classe “noir”, só para aqueles que gostam da verdade como ela é, sem cores, mergulhado num mundo obscuro de mentes doentias, apegadas ao prazer que o sofrimento alheio possa lhe dar, então você estará em casa.
Lawrence Block vai guiá-lo a mundo cinzento onde o que predomina é a indiferença, desde que para se ter o que se quer, não interessa a dor do outro, se é essa dor que o faça se sentir vivo. O escritor americano te apresenta Nova York como “fun city”, uma cidade que ignora o submundo à sua volta, que se revela à medida que você caminha pelos becos, vielas, zona do meretrício, bares e pub’s e espeluncas à beira do cais. Aí você se dará conta do perigo que ela carrega nas entranhas. Tudo nesses lugares te sufoca, o ambiente é tenso e não se pode envolver com qualquer distração, por que a morte espreita e ronda na penumbra.
Mattew Scudder recebe um telefonema de sua prima “Francis”, mas não se lembra de quem pudesse ser, então disse que não tinha nenhuma prima com esse nome, mas foi como se identificou a mulher, que deixou o recado, disse o porteiro. Depois de algum tempo lembrou-se, só podia ser Elaine, uma prostituta autônoma, com quem ele já tivera vários encontros furtivos, no entanto, tinha muito tempo que não usava desse expediente, até porque agora não precisava mais, estava divorciado e ela sabia disso, de qualquer forma o recado era para ligar imediatamente. Como não podia ser diferente, melhor mesmo era ligar e saber o “por que” da urgência.
Ligando, atendeu a secretária eletrônica, que dizia “deixe seu recado”. Assim foi o que fez: “Aqui é seu primo, retornando a ligação...” e antes que terminasse, ela atendeu e disse estar com medo, e que não podia contar por telefone e ele que fosse vê-la ainda hoje no seu apartamento.
Apesar de cansado, Scudder atravessou quarteirões para vê-la. Surpreendentemente, o motivo de todo aquele pavor, era que ela recebera uma correspondência, um envelope, sem remetente, com destinatário escrito em letra de forma, sem nenhuma carta, e dentro apenas um recorte de jornal, noticiando a morte de Connie, uma conhecida garota de programa que deixara esta vida e se casara e tivera dois filhos, tendo ido morar fora de Nova York. O Jornal informava o assassinato de toda família, Connie, o marido e os filhos.
Elaine desconfiava que não era um acaso, mas que se tratava de James Leo Motley, que anos atrás perseguiu tanto a Connie, como Elaine, tentando se passar por cafetão delas. O sujeito era perigoso, mas quem está na chuva é para molhar e pagando bem que mal tem então ele marcara um programa e tudo terminou em intimidação e medo para as “meninas”.
Ambas buscaram socorro em Matt e descreveram Motley, como violento, de linguajar sujo. Dava medo só de olhar para ele, tinha aquele olhar gelado, pronto para matar. No encontro com as duas, usou poderosamente as mãos, porque os dedos foram usados com uma truquês, que apertou suas axilas, quando ela reagiu aos seus desaforos. O toque e a pressão usadas tanto nas axilas, quanto na virilha, quase a levaram a desmaiar de dor.
A única coisa a fazer era armar para ele, porque o uso dos dedos não deixou hematomas e seria a palavra de duas prostitutas contra a de um cliente, bom, ele sentia muito, mas era a verdade, então tinha que ser algo mais contundente. Não podia esperar, porque afirmara que voltaria e elas trabalhavam de forma independente.
Na segunda visita, a Elaine forjou-se o estratagema que o levaria à prisão, mas isto você meu caro e dileto leitor terá que ler – BILHETE PARA O CEMITÉRIO, este primoroso romance de nossa época, que não fica devendo nada a ninguém, principalmente à imaginação, dado à sua verossemelhança que, de tão real, nos deixa estupefatos.

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