Itaúna, 21 de abril de 2019

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26 de janeiro de 2019 às 07h00 - Atualizado: 16 de fevereiro de 2019 às 10h11

Antônio Salera

Pouco sei da história do Antônio Salera. O conheci quando o Conselho de Patrimônio convidou alguns proprietários de imóveis de interesse histórico para uma conversa. Naquela oportunidade ele mostrou um respeito incomparável, tanto pelo patrimônio itaunense, quanto pelo Conselho, instituto sempre tão desvalorizado em nossa cidade. Surgiu dali, um grande respeito mútuo e uma simpatia afetuosa da minha parte.
Mesmo tendo esse belíssimo nome italiano, Antônio era mineiramente conhecido como Tuniquin Salera... Tuniquin Salera, o difícil, em alguns círculos. Vejo nessa qualificação um reconhecimento à sua tenacidade. Poderia ser Tuniquinho, o obstinado, o inteligentíssimo, o habilidoso, mas também Tuniquinho, o gentleman, o elegante, o cordial...
A sua atuação na Itaunense é dos maiores exemplos do seu caráter complexo e extraordinário. Poucos sabem e provavelmente essa história jamais será contada em detalhes, o quanto as muitas qualidades do Tuniquinho colaboraram para o seu sucesso. Negociações em muitos níveis, com agentes altamente qualificados, boa parte em São Paulo, terra que definitivamente não é para amadores. Ouvi dele alguns lances, contados sem qualquer traço de vaidade, mas revelando o prazer que ele tinha naquele jogo. Me parecia que o Tuniquin encarava o dinheiro como uma espécie de gol: fazia de tudo para ser o artilheiro, mas se não desse, voltava no campeonato seguinte, com a mesma disposição e bom humor.
Na última vez em que conversamos, falamos sobre a possibilidade de se criar um Museu da Indústria Itaunense, talvez numa edificação que fica atrás do monumento da Cia Industrial Itaunense, na Zezé Lima. Também lamentamos a não realização de um jardim, com o alargamento das calçadas na esquina do casarão do Dr. Augusto, ideia que também contava com o entusiasmo da sua adorada Esther. Entretanto, dentre as amenidades, um projeto que muito o tocava era o da restauração do presépio concebido e construído por Humberto Salera, seu avô, que veio da Itália e aportou-se nas Barrancas do São João. Tuniquin havia participado da obra e se lembrava dos detalhes. Propus então contratá-lo como estagiário... ele não disse se aceitaria, mas se dispôs a arcar com os custos da restauração.
Os olhos de Antônio Salera brilhavam com essas distrações... ele sonhava com prudência e logo voltava ao chão, planejando: “Vamos tomar um vinho lá em casa, no sábado e a gente conversa.”
É, meu caro amigo… pena que essa conversa vai ficar pra depois.

Sérgio Machado - Sérgio Machado

Arquiteto e  professor da Faculdade  de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna

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