Itaúna, 24 de outubro de 2017

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26 de agosto de 2017 às 07h00 - Atualizado: 15 de setembro de 2017 às 15h32

ADEUS, MR. CHIPS

James Hilton

Nunca dei a mínima para a opinião de que leio muita literatura estrangeira, porque o que há de bom na literatura é saber que nela não há estrangeirices, mas pessoas de carne e osso e por mais fantástico que seja o mundo em que estão inseridas são como nós, inteligentes, sagazes, capazes e também vis, más, frívolas, mal humoradas e etc., numa mistura de nuances que nos deixam às vezes perdidos entre os humanos sentimentos que temos, porque até quando somos demasiadamente racionais, somos mesmo seres emocionais.
James Hilton é escritor inglês, muito conhecido por seu romance o HORIZONTE PERDIDO, que no meu entender seria óbvio da minha parte comentá-lo primeiro, mas sequer o li e acabei por ler antes este memorável livro de cabeceira – ADEUS, MR. CHIPS.
O livro é marcado pela simplicidade, trata-se da história de um professor de uma renomada escola inglesa, BROOKFIELD, que passa pela vida suavemente e compromissado com o seu destino de ensinar e orientar pessoas. O Sr. Artur Chipping é pacato, sereno, mas engajado, vê as mudanças de seu tempo e à sua volta com entusiasmo e destemor.
A obra registra de maneira encantadora o conflito das classes inglesas mostrando o desprezo das que se consideram superiores e a resolução de acender a lugares mais altos das tidas como classes inferiores.
Enquanto isso... É o Senhor Chips quem vai com sua sensibilidade dando o colorido nos cinzentos dias estudantis de seus alunos. A obra principia com o Senhor Chips velho, na idade profética, já vencido pelos anos, sem deixar por isso de ser espirituoso. Uma vida dedicada ao magistério, com “vinte anos alimentara as ambições da maioria dos outros moços dessa idade. Sonhava conseguir um eventual cargo de diretor ou pelo menos uma cadeira em alguma escola realmente de primeira classe.” No entanto, a vida foi passando e ele percebeu que não tinha os atributos necessários e não era aguerrido o suficiente para disputar isso com alguém mais viril, assim “aos quarenta achava ele enraizado, estabelecido e completamente feliz.” Mais uma década e já era o decano do corpo docente e “aos sessenta já sob as ordens de um novo e jovem diretor, ele era Brookfield, o convidado de honra dos jantares, a corte de apelação em todos os assuntos referentes à história e à tradição de Brookfield.”
E em 1913, aos sessenta e cinco anos aposentou-se. Ganhou de presente um cheque, uma escrivaninha e um relógio. Atravessou a rua e foi morar na casa da Sra. Wicket. Nesse tom parece que, logo no início e fim de uma crônica, somos conduzidos ao universo introspectivo do Sr. Chipping e lá encontramos suas reminiscências.
Ele se lembra do dia em que a conheceu, estava escalando o Great Gable, quando se deparou com aquela criatura acenando excitadamente do alto de um recife de aspecto perigoso. Entendendo estar à donzela em apuros precipitou-se a socorrê-la e acabou por torcer o tornozelo, descobrindo assim que ela se tratava de uma alpinista, que por fim veio em seu socorro.
A Senhorita Katherine Bridges, tinha apenas vinte e cinco anos, podia ser sua filha, era de todos os modos que se olhasse uma pessoa improvável para se relacionar com o Senhor Chips. Conservador não imaginava como podia se encantar com uma mulher progressista e liberal, estranhava que ela o visitasse vindo de bicicleta, e sem acompanhante, mas com o passar do tempo estava completamente apaixonado.
Katherine ao se despedir dele, após um namoro que começara tão furtivamente, e totalmente apaixonada e satisfeita que o destino lhe tenha reservado conhecer um ser único e pronto, despediu-se, dizendo-lhe: “- Este é um momento solene, tu compreendes... O nosso último adeus. Eu me sinto mais ou menos assim como um aluno no primeiro dia de aula contigo. O que tenho não é medo, nota bem, mas apenas respeito, muito respeito. Devo dar-te senhoria? Ou o direito será dizer “Mr. Chips”? Acho que “Mr. Chips” fica melhor. Adeus então. Adeus Mr. Chips...”
Este livro encantou gerações e continua encantando, é óbvio que há muito mais a dizer, mas o melhor é ler e conhecer este indivíduo singular, que no cinema foi interpretado por Peter O’Toole e se fossem refilmá-lo hoje teria que ser no meu modo de ver Tom Hanks. Não deixe de ler porque a tradução foi feita por Érico Veríssimo e é maravilhosa.

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