Itaúna, 18 de dezembro de 2018

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17 de novembro de 2018 às 07h00 - Atualizado: 15 de dezembro de 2018 às 07h41

A ÚLTIMA CRÔNICA

Não era filho destas barrancas de Santana de São João Acima, mas poucos amavam Itaúna como ele. Faleceu nesta última segunda-feira, 15 dias após percorrer as escolas da cidade para distribuir exemplares do livro que escreveu recentemente sobre a mãe, Dona Graciana Coura de Miranda, coordenadora do curso de Normalistas da conceituada e saudosa Escola Normal de Itaúna e fundadora do Jardim de Infância Ana Cintra. Ela foi uma das maiores educadoras que já passou pela nossa cidade. Ele passou a adolescência e a juventude em Itaúna, colecionando uma multidão de amigos, onde era conhecido pelo apelido de Camelo. Aos 17 anos foi estudar em Belo Horizonte, onde se formou e ficou trabalhando, principalmente em Hotéis da Capital. Iniciou no Del Rey como Recepcionista e tradutor, pois, falava fluentemente inglês, espanhol e francês. Dali foi um pulo só para assumir a Gerência de vários hotéis de luxo da capital mineira e em Sete Lagoas. Conheceu e foi confidente de vários governadores e presidentes que hospedavam nos hotéis onde trabalhava, como: Juscelino,Tranquedo Neves, Israel Pinheiro e outros mais. Foi meu amigo de papo e de gole durante décadas, onde presenciamos dezenas e dezenas de fatos, “causus” e histórias do povo destas terras de Sant’Ana. Nos últimos anos passou a colaborar com alguns blogs de Belo Horizonte e recentemente de Itaúna onde, sob a alcunha de Urtigão, contava “causus” e criticava de forma pesada esta politicagem corrupta em nosso país. Em Itaúna somos colaboradores da FOLHA do POVO com uma coluna quinzenal. Em função da nossa amizade era comum submeter os nossos escritos um ao outro antes de encaminhá-los à redação da FOLHA para que, se necessário, acrescentar ou modificar algo em que um ou outro havia esquecido, pois na maioria dos “causus” e crônicas relatados, estivemos presentes. Nesta última quarta-feira, dia 07/11, ele me encaminhou sua mais recente crônica e eu lembro muito bem da figura retratada, um galã suburbano que tinha o mais belo topete da região. Quando calado, fazia o maior alvoroço entre as garotas da época. Ainda hoje, vez ou outra ainda o vejo pelos lados da Praça da Matriz. Em memória do meu grande amigo José Silvério de Vasconcelos Miranda, vulgo Camelo, segue a sua última crônica que ainda não foi publicada pelo Renilton:

O BOA PINTA - Urtigão

Era um dos galãs da cidade. Alto, bem feito de corpo, claro com cabelos lisos e fáceis de moldar. Cabeleira obediente, como convinha nos anos sessenta. Cabelos masculinos obrigató
riamente tinham de ter topete e de preferência ostentar algumas ondas ao longo do penteado, no feitio dos astros de Hollywood como: Tony Curtis, Rocky Hudson e Marlon Brando. Eis que surge no final dos anos cinquenta um ex-motorista de caminhão nos USA, que tinha tais atributos e cantava rock and roll. Trajava roupas extravagantes e tinha um topete inigualável. Seu nome: Elvis Presley. Os sósias do grande ídolo apareceram no mundo inteiro. No Brasil e também em Itaúna, apareceram cópias caboclas do cantor e ator de sucesso.
Em Itaúna o tipo acima descrito encarnou como uma luva a “fantasia” de Elvis. Não era necessário cantar ou tampouco vestir como o ídolo. Parecença física, e o rosto e o topete era o suficiente. Contam as más línguas que o guapo mancebo arranjou uma bela namorada em Pará de Minas. Normalista, formada pela Escola Normal de Itaúna e cobiçada por naturais do lugar e pela juventude masculina de Itaúna e arredores. Um parêntese: o nosso herói tinha conversa ruim, não estudava e ficava melhor de boca fechada. Língua portuguesa estropiada, cheia de batatas e pouco ou quase nenhum trato com letras e ciências elementares. Contam que no primeiro encontro o bonitão foi recebido na casa da moça com pompa e circunstância. Convidado para o almoço de domingo, por precaução, declinou do honroso convite. Saiu com a namorada, comprou um sorvete e assentaram na pracinha para conversar e trocar impressões. A moça estava radiante. Um namorado boa pinta, estudante e com boas intenções. Começada a prosa, a moça perguntou: “qual a sua opinião sobre Pará de Minas? Acha a cidade hospitaleira?”.
Resposta do bonitão itaunense: “ainda não posso responder sem saber. Afinal, não sei quantos hospitais têm aqui”! A namorada fez-se de desentendida e perguntou em seguida: “você estuda interno ou externo”? Resposta pronta do nosso galã: “estudo e gosto das duas matérias!”. A moça já estava desesperançada. Depois de um silêncio longo, o bonitão a guisa de puxar prosa, apontou para a calçada e disse para a recente amada: “olhe lá a largatixa!”. A moça viu o bichinho de relance, e bem educada perguntou ao Elvis itaunense: é largatixa ou
lagartixa? Resposta pronta do bonitão: “não sei. Passou correndo!!!”. O namoro acabou na hora.

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