Itaúna, 24 de setembro de 2018

Cadastro

30 de junho de 2018 às 07h00 - Atualizado: 21 de julho de 2018 às 12h05

A SEDUÇÃO DAS PALAVRAS

Maria Lúcia Mendes

Nada me daria maior prazer do que falar de uma escritora de minha terra, Itaúna, aqui não é somente a terra de Oscar Dias Correa, ou do título de primeira Cidade Educativa do Mundo é terra também de Maria Lúcia Mendes, professora que se descobriu escritora por excelência.
A obra sob o lume dos holofotes do momento, de lavra dessa escritora itaunense, é, A SEDUÇÃO DAS PALAVRAS. Livro de contos e crônicas em quase sua totalidade, mas tem alguns poemas e de uma coisa estou certo, aos amantes da leitura em geral, vai agradar.
Com tanta variedade gostaria de ser capaz de falar de tudo que o livro trouxe e me encantou, preciso dizer que você caro leitor está diante de “causos” pitorescos e bem contados, sem se falar que se sentirá em volta de uma fogueira, quando a lua se distrai em altas horas, rasgando-se madrugada adentro.
Tudo começa com o CASARÃO, pois, “Quem passa pela Rua dos Latoeiros esquina com o Beco do Ourives avista logo o casarão em ruínas.” Ele que “foi palco de um caso estranho, cercado de mistérios.” Com essa abordagem você já estará fisgado, pois, passando por aquelas paragens um “barão do café gostou de uma casa do sul de Minas.”.
O barão gostou tanto do casarão, que o comprou. Tinha recomendações para morar em lugar de ar fresco por causa de sua tuberculose manifestada na infância. De bagagem trouxe consigo a mulher Tomásia, a filha Olívia e Delfina, negra criada pelos pais do barão que continuava servindo a família.
Dona Tomásia não dava confiança aos vizinhos dizia sempre que: “- Muita convivência acaba em inconveniência.”. O casarão logo floriu, porque mãe e filha bordavam a olhos vistos todo tipo de toalhas e as expunham nas sacadas entre jarrões, que eram objeto de comentários variados. “- Olhe só, o centro é todo em crivo e ponto cheio! E aquela cercadura em ponto cruz.”. O ego inflado deixava as moradoras que espiavam por trás das cortinas satisfeitas com o lugar.
O barão por sua vez era extrovertido, falava de tudo e gostava do ambiente de botecos, e não podia dar em outra coisa, depois de goles e goles de cachaça ficava falante e desandava a contar casos, que de tão engraçados, deixavam todos de bochechas doendo de tanto rir. Não deixava de falar também de suas aventuras em casas suspeitas “nos braços de moçoilas lindíssimas com mãos e corpo de veludo” encerrando sempre com a justificativa de que “É uma desgraça! Mas a gente vicia...” No entanto, quando se tratava de falar de suas fazendas e posses era cauteloso respondendo com um “Razoável” sem esticar o assunto. Convido-o a ler o restante no conto O CASARÃO. Capricho é uma crônica que de tão rápida nos surpreende terminando quando ainda pensávamos que estava começando, mas é o melhor exemplo de que o pouco pode ser também equilibrado e saboroso, porque se tem aqui o cheiro presente de mato e terreiro varrido com alecrim, muito comum em cidades e roças de Minas. As folhagens são também conhecidas de todos nós, e estão espalhadas pelo alpendre em latas de guiné e comigo-ninguém-pode.
O esmero é tanto que os móveis brilham com óleo de peroba, há enfeites na mesa, com melindres que sozinho não deram o ar esperado, sendo acompanhados por fim por sempre vivas, e a casa ficou um brinco. Só lendo mesmo, é encantador, para quem divisa as imagens que as palavras dão.
Para encerrar, porque o espaço é pouco, deixei a sobremesa para o final, porque nada melhor que um poema como OUTONO para adoçar com lirismo a vida:
“Antes que o trem dobre a curva E perca o rumo dos trilhos.
Antes que acabe a brancura Das pitangueiras em flor
Antes que eu culpe as cigarras Pelo feitiço da tarde
Antes que o vento esparrame As conchas azuis das praias
Antes que violões e violinos Adormeçam as serenatas (...)
Vou buscar um amor antigo que nas rugas da memória em rastros de luz e sombras
Tornou-se abrigo.”
E antes que termine o espaço, não se compra um livro pela capa, mas este você pode comprar é linda, o acabamento é primoroso, papel do melhor, tem orelha com breve relato das obras e biografia da autora, por fim na contra capa, um comentário do crítico literário e também itaunense Marco Aurélio Matos, se tudo isso não te seduzir, te garanto que as palavras de Maria Lúcia Mendes te seduzirão.

Colunas recentes de Cláudio Lisyas - Literatura