Itaúna, 21 de maio de 2018

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02 de dezembro de 2017 às 07h00 - Atualizado: 23 de dezembro de 2017 às 10h33

A MORTE DE NINA

Você não deve lembrar-se da chegada da Nina a minha casa, dia 8/7/2002.
Sentado na copa, Taís veio a mim, com o braço direito para trás e me perguntou:  —Adivinhe o que é.
—Sem condição.
—Trouxe o braço a frente. Olhei.
—Deve ser de pano. E  sua mãe?
—Já conversei com ela.
—Sugira um nome.
—Sem condição.
—Nina, fica bom?
—Fica.
Não sabia do prazer e da trabalheira que uma linda shih-tzu traria para seu dono, sem falar no dinheiro a investir. Veio depressa a necessidade de castrá-la, e levei-a ao doutor.
Tive logo de buscá-la, porque ela sofreu choque com o anestésico, mas deu tempo de o operador cortar o perigo. Coloquei-me na mão do Dr. Victor e tudo se resolveu.
Toda manhã, ela já fazendo festa, punha-lhe a guia (cabrestinho) e saíamos a passear pelo bairro. Ela e eu ficamos conhecidos dos outros cachorros e seus donos, com receitas para qualquer problema menor de saúde.
Se o sol estivesse muito quente, tínhamos beiradas de passeios, pedras largas, troncos caídos e sombras acolhedoras. Recolhia em saquinho plástico o cocô de Nina e sempre reprovava ver a omissão do dono de outro canino.
Ela ia parando pelo caminho, cheirando o capim, e qualquer moitinha.
Pacífica, jamais puxou ou aceitou briga. No começo eu levava um pedaço de pau para afugentar algum cão atrevido.
Nina gostava de correr para buscar sua bola atirada longe.
Durante toda sua vida, ao almoço, dava-lhe comida imprópria. Parei certa época, mas minha gente não parou.
Até o último ano de sua vida, nunca latiu. Tal qual seu dono, a surdez, a catarata, a cegueira, a falta de orientação (andando em círculo), o diabetes, o tumor no fígado (?) fizeram-na aprender a ladrar.
Dava-me pena vê-la daquele jeito: eu, também, com tumor na coluna vertebral, em cadeira de rodas, problema no olho esquerdo, pouca audição, diabetes, hérnia umbilical, antidepressivos e soníferos, fisioterapia intensa. Ela quis ser solidaria com o dono até na doença.
Nina nasceu no dia 8/7/2002 e morreu no dia 2/10/2017. Clínica da mais alta competência deu-lhe assistência insuperável. Taís e eu levamo-la para ser cremada no Lumina Memorial, na BR 040, Km 573. Dirigi-lhe as palavras derradeiras de um triste coração.
Declarei que sua bondade, inocência e amor que nos unia, a levariam para o céu, um polêmico céu para sua espécie de animal, também dirigido por São Pedro. Recitei-lhe um longo poema “Veludo”, padrão da lealdade de sua espécie, e terminei pedindo a ela, Nina: perdão pelas vezes que de você reclamei as despesas com a saúde, vinte vezes menores que os custos de meus pecados.

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