Itaúna, 23 de outubro de 2017

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10 de junho de 2017 às 07h00 - Atualizado: 08 de julho de 2017 às 09h46

A LETRA ESCARLATE

Nathaniel Hawthorne 

Para quem não está familiarizado com o ambiente puritano, esta é uma excelente obra para se ter contato com a hipocrisia de uma comunidade que se baseia na punição.
Diferentemente do filme a história começa com a saída de Hester Prynne da prisão até o pelourinho em que será exposta na praça do mercado.
Só a caminhada da prisão ao mercado já é uma “via crucis” vexatória para Hester, que trás nos braços o filho de três meses, sem sequer saber o suplício pelo qual passará sua mãe.
A sentença é de que ficará no patíbulo à vista de todos por três horas seguidas, e será obrigada a ostentar uma letra “A” escarlate no peito de suas vestes pelo resto de sua vida.
Estamos em Massachusetts, em pleno século XVII, numa comunidade puritana na qual o crime ou pecado de adultério é punido com a morte.
Para as matronas, beatas de plantão, a pena fora suave demais porque segundo elas a Sra. Hester deveria ser punida com a morte.
A culpa de Hester começa por ser bonita demais. Como pode Deus dar tantos atributos a uma só mulher e relegar as outras ao escárnio do espelho?
O sentimento de repulsa das mulheres da pequena cidade de Boston é evidente, sendo destaque em toda obra.
A inveja e a hipocrisia andam de mãos dadas, mas a maledicência está em voga e todos querem porque querem, que Sra. Hester, revele quem é o pai da criança e ali onde a multidão se aperta por saciar a curiosidade, todos anseiam pela revelação.
Estão presentes as autoridades. O governador Bellingham com outros quatro membros da magistratura em redor, no entanto, quem chama mais a atenção de Hester é o homem branco “que vestia uma estranha combinação de trajes civilizados e selvagens” ao lado de um índio que lhe fazia companhia.
De fato aquele homem se interessara pela triste cena, indagou o que se passava a um dos presentes, sendo informado do acontecimento, de que Sra. Hester havia sido pega em adultério e agora estava sendo submetida a uma execração pública cumulada por uma pena perene, de trazer em suas vestes de forma visível para o resto de sua vida a mácula de seus atos na forma de uma letra “A” escarlate.
Nesse momento, aquela passividade demonstrada pelo estranho mais pareceria a quem o visse uma fúria incontrolável, que imediatamente foi abatida e devidamente colocada de lado, mostrando se tratar de pessoa capaz de esconder os mais nefastos sentimentos.
Acima da plataforma em que se encontrava Hester Prynne, havia uma sacada, pertencente à igreja, lugar de onde se faziam as proclamações públicas da época. Ali postado na nessa galeria aberta, bradou a voz do reverendo John Wilson, o mais provecto sacerdote de Boston, erudito, de espírito gentil e agradável.
Porém naquela hora e dada às circunstâncias nenhum de seus atributos poderiam minimizar o interesse de fazer revelar quem em seu desatino havia lançado a jovem Sra. Hester no lamaçal dos adúlteros. Nem os apelos do jovem Pastor Dimmesdale, puderam impedir que fosse a jovem senhora pressionada a confessar e delatar o famigerado alcoviteiro.
Assim o reverendo John incitou o jovem Pastor Dimmesdale a convencer Hester de que a delação seria um meio de minorar a pena. De forma persuasiva o pastor Dimmesdale, inclinando-se para fora da sacada, tentou dissuadi-la dizendo: “Se tu sentes que é para o bem de tua alma, e que o teu castigo terreno pode assim ser mais eficaz para a tua salvação, peço que reveles o nome do teu companheiro de pecado e sofrimento! Não te cales por compaixão equivocada nem por ternura;...”.
Hester apenas balançou negativamente sua cabeça. Negando seguidas vezes expor o homem amado e sujeitando-se a cruel e impassível pena.
Este é sem dúvida um grande clássico. Memorável em todos os sentidos. A condução do tema e a dissecação do que pior nos deu o puritanismo justifica a leitura, lembrando que apenas lhes apresentei um vislumbre da obra.
Apesar de Hollywood ter caprichado no elenco que contou com a participação de Demi Moore no papel principal, Robert Duval e Gary Oldmam o livro supera a produção cinematográfica praticamente em tudo, mas fica aí a dica, sem deixar de insistir com você para que leia. Privilegie o livro e sua imaginação.

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