Itaúna, 26 de setembro de 2018

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04 de agosto de 2018 às 07h00 - Atualizado: 25 de agosto de 2018 às 10h18

A ala feminina - 01

No relógio da Matriz soava a última badalada, indicando 23h00 e a reunião na Rua João de Cerqueira Lima não dava sinais de terminar tão cedo.
- “Silêncio pessoal, vamos por assunto” – falava o Lacel.
- “Vê se falam mais baixo, senão vão acabar acordando o Dêgo” - exclamava preocupado o Rubens do Major Rui.
- “Vamos passar para o próximo assunto” - sugeria o Lacel, retomando o comando da reunião.
- “Ô pessoal! Este ano estamos propondo criar uma ala feminina no nosso bloco. Nós precisamos mudar esta imagem injusta de cachaceiros, brigadores, baderneiros e bagunceiros que o pessoal de Itaúna tem pelo Bloco do Clube dos Zulus. A melhor forma de demonstrarmos isto é incluir a ala feminina. O que vocês acham?”.
- “Tudo bem, Lacel!”- Exclamou o Ronaldo Passarinho, sentado ao lado do Márcio Timbuca, Xandoca, Paquinha e Ricardo Pinta. Mas quais as moças que vão participar desta ala feminina quis saber o interlecutor?”
- “Isto não tem importância, pois ainda faltam vinte dias para o carnaval e nós temos muito tempo para escolher as componentes da ala - continuava o Lacel, naquela memorável reunião na sede do Zulus na Rua João de Cerqueira Lima, no térreo da casa do Sr. Dêgo, ao lado do antigo Correio, no carnaval de 1967.
- “Mas mulher no Bloco dos Zulus?” – contestou o Virgilinho Cocó – eu acho que vai inibir o pessoal!”.
- “O que custa experimentar pessoal?” – Se não der certo, no ano que vem elas não saem, exclamou um pouco exaltado o Julinho Fugueteiro.
- “E se elas queimarem com a pólvora na hora da macumba? – Falou preocupado o Délio Drumond. É muita responsabilidade!”.
E a reunião entrava madrugada adentro com a zuluzada presente em peso, e entre sugestões, votos contrários e a favor, acabou aprovando à inclusão da ala feminina no carnaval daquele ano.
- “Eu acho que para dar exemplo, no dia do desfile nós não deveríamos beber. Vamos sair de cara limpa e mostrar para a sociedade de Itaúna que o Bloco do Clube dos Zulus sabe se comportar – acrescentou o Dinarte”. - Foi um Deus nos acuda. “– Sair sem beber no desfile de carnaval?!” Nem morta! – resmungou o Roosevelt.
- “Sem beber nós não temos coragem de sapatear em cima da caveira de boi e fazer a macumba - retrucaram o Camêlo e o Vandão, com apoio total do Imar, Celinho e Cangosto”.
- “É, sem beber vai ser duro desfilar” - resmungou o Tarefa para o Oto Morávia que sorvia tranquilamente um cuba duplo.
- “E a minha cerveja!” – Como vou devorar os meus trinta pasteis sem uma cervejinha? – Esbravejava indignado o Luciano Piranha.
Mas, lá pelas tantas da madrugada, foi aprovado pela maioria, o desfile sem bebidas alcóolicas. Escolhidas as meninas, foi providenciado à confecção das tangas de raspa de couro amarelo na sapataria do Vico Sapateiro, que ficava em frente à sede do clube, bem ao lado do Bar do Tapa na Paca. As fantasias eram todas iguais, tanto para os homens, quanto para a ala feminina: calça e camisa de manga comprida preta, com uma tanga de couro amarela, cara pintada de preto com a boca amarela e uma cabeleira de corda de bacalhau com um osso atravessado. Na ala feminina a calça comprida era substituída por uma meia-comprida e um short preto.
E chega o sábado de carnaval. Às 19h00 horas a Zuluzada já fantasiada, e sem beber nada, aguardava a chegada da nova ala que estava se arrumando na casa da Naira do Carmelo.
- “Dá um bafo!” – Falava o Lacel para todos que chegavam. Pode tratar de mascar um chicletes, ô Hélio Turruca! – “Ocê tá cheirando bebida rapaz!”.
E assim o tempo foi passando e nada da ala feminina aparecer. Já passava das 20h30, a bateria já estava no aquecimento sob o comando do Roberto Brigite, quando dois taxis estacionaram em frente à sede do Bloco e o espanto foi geral. Do taxi desceram a Naira do Carmelo, Sandra, Maria Ramira, Mônica, Meirecleia, Beatriz Chaves, Shirley e Alvarina, devidamente fantasiadas e totalmente embriagadas. A cena não podia ser mais cômica. De um lado da rua a Zuluzada tímida, apreensiva e de olhos arregalados se entreolhando, e do outro as meninas se abraçando, cambaleando, cantando, dando pulos e rolando pelo chão na maior farra.
- “Esqueceram de avisar para ala feminina que nós não íamos beber!” - Exclamou numa gargalhada o Walmir Falcão. Foi só o Walmir terminar de falar que a Beatriz Chaves gritou do outro lado da rua com uma garrafa de rum na não: esta droga de Bloco sai ou não sai? Não foi necessário dizer mais nada. Em questão de segundos a zuluzada ocupou o Bar do Tapa na Paca que ficava em frente e bebeu todo o estoque disponível. Até hoje muitas das pessoas que estavam na Praça da Matriz, naquele sábado de carnaval ainda não entenderam porque quando o Bloco dos Zulus passou ao som da potente bateria em frente ao Cine Rex, um grupo de mocinhas com a cara pintada de preto e amarelo ficou para trás nadando no laguinho da Praça.
- “Deve ser algum tipo novo de evolução!” - Comentou na época o Ricardo do Crispim para o Antônio Mocotó, enquanto assistiam o desfile do Bloco do Clube dos Zulus em frente ao Bar Azul..............

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